"Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido" O SILÊNCIO, José Tolentino Mendonça
trazemos uma ferida
e o corpo ferido" O SILÊNCIO, José Tolentino Mendonça
- Perdoar-me-ás, Francisca, mas sou um homem
rude e franco
disse Gabriel, com uma expressão séria no
rosto, sentindo os músculos da cara arrepanhados, numa claro sentimento de
desconforto.
- Meu anjo, és bela, impenetravelmente bela, e
tão adorável que estremeço só de te beijar os cabelos, mas preciso de tempo. A
nossa relação invade-me, força-me a viver numa correria entre tu e eu. Foi tudo
muito acelerado e sinto-me perturbado.
Francisca como se tivesse levado um tiro no
coração. Estavam sentados a uma canto no pequeno bar do Palácio
Beau-Séjour, na expectativa de que naquele silêncio do Outono ninguém
os conhecesse. Mas nem assim conseguiam iludir a impressão de estarem a ser
observados. Gabriel disse
- É preciso que entendas, não se trata tão só
de um doce pecado ou de segredos partilhados, existe a Inês e os gémeos de um
lado, tu do outro e eu com a cabeça metida num emaranhado de espinhos. É tudo
novo, estou confuso e algo desamparado e sem coragem de agarrar o toiro pelos
cornos. Francamente não sei o que pensar.
Francisca escutava em silêncio, desolada,
exalando um ar de profunda humilhação, com a sensação de ter sido condenada a
habitar nos arredores monótonos da vida. Aquele encontro estava longe de ser uma
Ode à Alegria. Gabriel não usava aliança, mas o coração brotava-lhe nos dedos.
Desde o primeiro instante que Francisca se deliciava a admirar as mãos daquele
homem de lábios grossos e olhos negros como a noite, humilde desenhador de
arquitectura de uma autarquia da periferia, cuja taciturnidade era quebrada por
espasmos de enorme jovialidade, embora quase impotente do ponto de vista
linguístico. Foi amor ao primeiro toque, desejava-o palmo a palmo, milímetro a
milímetro. Gabriel disse
- A verdade dói, mas também não podemos
desprezar o António e os teus filhos
isto com o rosto virado de lado,
assemelhando-se as suas palavras a uma letra para uma canção sobre traição.
Francisca ouvia-o mas com os olhos desviados para o quadro exposto na parede:
uma reprodução de Menez, sentido agudo da luz e da cor, em composições
abstractas onde as vagas geometrias entranhavam um ritmo exclusivamente plástico
na abstracção. A perseguição das palavras
- E tenho o horror de não ser capaz de
ultrapassar este terrível sentimento de culpa
esmagavam-na. Não muito longe do Palácio há um
esconderijo algures num canto perdido do mundo, onde se amaram meia dúzia de
vezes, um prédio com as paredes manchadas de preto e a palavra PENSÃO quase
apagada pela sujidade e pelo tempo, percorriam um corredor azul-mar em passos
incertos, com a intensidade do medo, algo assustados, algo inquietos, devaneios
de duas almas hipersensíveis agrilhoadas em estreitas vidas.
Gabriel, um homem alto e de constituição
robusta, despia-se envergonhado, parecia uma criancinha assustada, com temor da
sensualidade e do escuro.
- Nunca vivi uma situação desta natureza
desenvolvia ele.
- É a primeira vez que danço no trapézio
proibido de um circo sem rede, uma realidade em que nunca me tinha visto desde
que casei
e Francisca sentada na cama juntinha a ele,
pouco à vontade, no receio de que Gabriel pensasse que ela era uma despudorada.
Os dois permaneceram calados durante algum
tempo.
- Devo confessar que talvez seja melhor não nos
precipitarmos, não achas? – pergunta Gabriel, numa voz meio rouca, tentando
recuperar o sangue-frio e reunir num todo as peças espalhadas do quebra-cabeças
que dá forma ao seu eu.
Francisca tocou-lhe de leve na mão com a
intensidade do medo, limitando-se a concordar com a cabeça e qualquer coisa a
chover dentro dela, a vida fodida – e a alma rasgada.
- Oh, meu amor, não posso, simplesmente não
posso viver sem ti. E eu não vejo mais nada além de ti. E nada mais desejo senão
que estejamos juntos outra vez. Amar-te é amar-me
e, ainda a meio do desabafo, já o achava
extemporâneo, perdido como o fio de um cabelo: mulher, os gémeos, ainda
crianças, ainda de bibe branco, a estabilidade dos filhos dela, adolescentes, a
família do António, animais gregários, sempre principescamente tratada, verdade
seja dita. A convicção supersticiosa de ter de prestar contas. Atirar-se ao
desbarato numa aventura irreparável, um amor ligeiramente decadente, as salivas
proibidas, uma relação sem destino. O pavor de ser supérflua, de estar a usurpar
o lugar de outra pessoa. Além de mais restava-lhe alguma ternura pelo
fantasmagórico marido de quem tinha apreciado os seus livros antes de o
conhecer, mas há centenas de anos que não sabia o significado da palavra
intimidade, vida a dois numa espécie de beau monde requintadamente
culto e opressivo, que de tão insípido quase permitia ouvir o pêlo da alcatifa a
crescer na mais fina das prisões, sim, de facto era casada com alguém a quem
nenhuma emoção enrugaria a pele. Após um emudecimento incómodo Gabriel
disse
- Eu sinto-me cada vez mais próximo de ti, invades-me as veias e o cérebro, mas estou perdido no labirinto da mágoa daqueles que pertencem a lugar nenhum, o que é que posso, podemos fazer?
Um universo a separá-los, a família antiga e
abastada, amigos, interesses distintos, de instante para instante identificam-se
lacunas, tão só carícias arriscadas, porque não pôr fim a estes encontros,
mensagens escondidas, desassossego, arrependimento, filhos, sogro ministro de
Estado, corpos tensos, paixão secreta, que complicado, e depois, o futuro?
Gabriel disse
- Mas recuso a ideia de deixar de pensar em ti,
acredita
e a cara feita em estilhaços para interditar
uma lágrima, Francisca, para si mesmo
- Não sofras
- Não tenhas medo
disse Gabriel, sorrindo-lhe
Com o tempo…
e agora em atitude febril de gata em telhado de zinco quente, fortalece o desejo de abraçá-lo e repetir incessantemente que o amava,
- Não me abandones
um sofrimento só comparável ao de quando viu Isabel reduzida a cinzas
Gabriel
- Também me arrepia a ideia de nos separarmos
mas receio que nos possamos deixar engolir por areias movediças. Qual a
alternativa, pergunta, enquanto lhe acaricia os pálidos braços lânguidos de
bailarina.
Francisca susteve a respiração por um momento e
decidiu levantar-se, empurrar a cadeira sem se preocupar se esta caía ou não,
sem desviar os olhos por um segundo do rosto de Gabriel
- Desculpa, tenho de ir, esperam-me
e pálida e fria, saiu o mais depressa que as
pernas o permitiram, tirou um cigarro da bolsa e acendeu-o com o isqueiro do
carro, sintonizou uma estação de música clássica e ao som da Paixão Segundo
São Mateus de Bach apanhou a estrada na direcção de uma qualquer praia
deserta, tranquila e escura, as lágrimas inundavam com persistência os olhos,
enquanto amaldiçoava um mundo de enganos, um romance engolido pelas
brumas.
Ter-lhe-á ocorrido que me viu pela última vez,
que o Beau-Séjour foi o perpétuo adeus? Que a minha vida tinha ficado
entalada na porta da pensão, como um dedo? Afinal o que era o amor? Que amores
eram aqueles que encontrava pelo caminho e que tinham sempre algo de
inconsistente? Mas isso, como é evidente, é questão de importância
secundária
o que lhe importava agora tudo isso, quando
amanhã é dia de celebrar o vigésimo aniversário do seu casamento num dos
melhores hotéis de luxo de Lisboa?
Luís Galego http://youtu.be/nuBeByQQUo8
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