sábado, 27 de abril de 2013

George Winston - Living in the Country from his album SUMMER

MONTRA NACIONAL «Tenho viajado entre Lisboa e Viana do Castelo, aquilo a que, na gíria, se chama “fazer piscinas”. Tenho passado por muitos lugares, muitas cidades, vilas e aldeias nestas viagens. A fotografia que reproduzo foi tirada em Viana, e publicita a exposição da artista plástica Joana Vasconcelos no palácio da Ajuda, em Lisboa. A promoção está em todo o lado. Eu encontro-me em Viana para fazer A Menina do Futuro Torcido, uma produção do Teatro do Noroeste a partir de um conto de Mia Couto. Não só não temos nenhum cartaz deste tamanho em Viana ou na região, como não temos nenhum anúncio nos jornais locais ou nacionais e, como é de prever, não temos notícias e muito menos críticos especializados a escrever sobre o espectáculo. Enfim, estamos condenados a um silêncio que eu conheço de ginjeira e que, entre outras razões possíveis, ajuda muito a que companhias como esta sejam excluídas dos apoios regulares. Entre a órbita actual da artista Joana Vasconcelos e esta malta que aqui e ali anda a fazer teatro existe um abismo. Mas será um abismo baseado na capacidade e no investimento no trabalho puro e duro? Por aí não vale a pena ir: trabalhámos no duro para fazer esta peça. Restam duas condições para explicar o abismo de visibilidade, mesmo tratando-se de áreas artísticas tão diversas: a curiosidade suscitada e a ambição, essa palavra ardilosa, manifestada. Ora estas duas últimas palavras são as que fazem toda a diferença, porque são aquelas que não dependem da exclusiva vontade do artista. O artista trabalha. Se o seu trabalho suscita curiosidade ou não, ou se a sua ambição produz resultados ou não, já não depende apenas de si. O artista pode tentar excitar a curiosidade — da comunicação social especializada, para começar —, mas nada lhe garante que seja bem sucedido, seja em Viana, seja em Lisboa. A ambição é todo um outro processo, no qual o próprio é parte interessada, mas não é parte única. Pode haver uma vívida ambição do artista — eu preferia chamar-lhe expectativa de tocar as pessoas —, mas uma deficitária capacidade da estrutura em que o artista se insere para transmitir e potencializar ao máximo essa expectativa e o respectivo investimento artístico realizado. Isto acontece no teatro, como na literatura, na música ou nas artes plásticas. Mas também sucede haver um conjunto de circunstâncias e interesses divergentes em que o próprio Estado, seja através de apoios centrais ou autárquicos, condiciona a relevância das actividades artísticas a uma mesquinhez financeira que, sustentada num discurso gestionário, asfixia, mais do que potencia, a própria lógica da necessidade cultural a que se sente, como quem se conforta, obrigado. Em resumo, sempre que é preciso enaltecer Portugal, enaltece-se a cultura, como o fez recentemente Cavaco Silva em Bogotá. Sempre que é preciso enaltecer a cultura, Portugal serve de desculpa para a miserável situação em que os seus criadores vivem. Um pouco mais de sol e éramos brasa. Um pouco mais de ambição nacional, e a nossa cultura era menos decorativa e não murchava nos vasos depois das festas de aparato. No meio de tudo isto, Joana Vasconcelos destoa. É de louvar a sua determinação. Mas acabo de ver um documentário sobre a sua obra, onde ela afirma, precisamente, que “tinha necessidade de ter obra”. Não me entretenho normalmente a elaborar, uma posição crítica sobre outros artistas. E, para mim, a Joana é sem dúvida, uma artista. Vi, e interessou-me, a sua exposição no CCB, que me pareceu na verdade mais uma instalação, ou uma sucessão de instalações, do que uma exposição propriamente dita. Mas pouco mais sei, senão que ela está em todo o lado, em Versalhes, em Veneza, na Ajuda, e até nas ruas de Viana. Por isso, vi com atenção o documentário. Confesso que fiquei desapontado. Nos últimos dias, por exemplo, ouvi o extraordinário Alberto Carneiro falar sobre o seu trabalho a propósito da recente exposição em Serralves. Ética e estética são apenas duas traves do seu discurso filosófico intenso a propósito do seu próprio trabalho. Não falo de aparato no discurso: os dislates brincalhões de uma Paula Rego a propósito da sua obra são, para mim, como que o som dos seus quadros: maravilhosos, e de uma perturbante candura, violenta e provocante. Mas Portugal não se pode dar ao luxo de uma Paula Rêgo em condições e sem sobressaltos: não há dinheiro para manter a sua obra sossegada em Cascais. É neste contexto que a Joana Vasconcelos paira e surpreende acima de tudo. O documentário que vi, porém, é esclarecedor de uma vacuidade latente no seu aparato. Não há nela um discurso próprio que seja minimamente provocador, interessante, ou sequer evasivo (o que é, muitas vezes, uma qualidade). Ficam os objectos, as suas reciclagens de grande efeito cenográfico — há uma teatralidade cenográfica no seu trabalho que, efectivamente, interpela. E, como ela própria afirma, a partir do momento em que se diz bem ou mal, em que uma obra se discute, deixa de ser um mero bibelot. Isto, e a ideia de contemporizar o passado a partir de objectos do quotidiano caídos em desuso, foram as únicas ideias vagamente sugestivas que ouvi. Tudo o resto foi conversa de empresária bem sucedida, num nicho de mercado que, paradoxalmente, está a ocupar o espaço todo. Ora a ausência de uma sustentação programática e afirmativa, fruto da vacuidade do discurso da artista a respeito da sua obra, contribui em muito para que, por mais que queira sintomaticamente escapar à condição de bibelot, ela se confirme como adorno. Duchamp foi, pelo menos, eficaz. Mas o tempo passou, e o ready made foi substituído pela bricolage. E dei por mim a pensar nos pacientes castelos feitos com fósforos, nas elaboradas e monumentais esculturas efémeras em chocolate, gelo ou areia, na atracção das grandes construções feitas de peças de lego e na torta de Viana com cerca de setenta metros que hoje será degustada na cidade. Também pensei em montras e nas tecnologias que estão associadas à sua concepção. E fiquei a cismar no que distinguirá tudo isso de sapatos gigantes feitos de tachos de alumínio, de carrosséis feitos de cães de louça partindo-se, duma toalha de renda grande feita de muitas toalhas de renda cosidas umas às outras ou da colagem de centenas de garfos de plástico vermelhos, montados com a filigrânica forma de um coração de Viana gigante.» André Gago


http://www.youtube.com/watch?v=tcUVG1-96kk&feature=share&list=PL70D1199C3FF05718

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