Se te pergunto o caminho, falas-me das rochas
que mortificam o dorso das montanhas; e do ranger
da água no galope dos rios; e das nuvens que coroam as paisagens. Contas que a noite geme nas fendas
dos penhascos porque as cidades apodreceram junto
às margens; que o vento é um chicote que desaba
os chapéus; que terra treme; que o nevoeiro cega; e
que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha dovestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.
se perderiam no comprimento das sombras ― que não há
mapas para os sonhos de quem morre de amor; e que
os ramos debruçados dos muros das ruínas rasgariam
a carne ― como um sorris rasga o tecido de um rosto.
Maria do Rosário Pedreira
biografia:
Maria do Rosário Pedreira nasceu em Lisboa, em 1959. Licenciou-se
em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses,
pela Universidade Clássica de Lisboa (1981). Possui ainda o curso de Língua e
Cultura do Instituto Italiano de Cultura em Portugal, tendo sido bolseira do
governo italiano e frequentado um curso de verão na Universidade de Perugia.
Frequentou durante quatro anos o Goethe Institut, foi professora do Ensino
Básico, fez algumas traduções, proferiu conferências, etc.
Trabalhou como coordenadora dos serviços editoriais da Editora
Gradiva. Foi directora de publicações da Sociedade Portugal-Frankfurt 97 e
editora dos catálogos dos pavilhões oficiais temáticos da Expo-98, tal como
redactora das publicações inerentes aos Festivais dos 100 Dias e Mergulho no
Futuro, promovidos durante a Expo-98. É editora da "Temas e Debates" (grupo
Bertelsmann) desde 1998.
Como escritora, tem já publicados vários trabalhos de ficção,
poesia, ensaio, crónicas e literatura juvenil, procurando neste último género a
transmissão de valores humanos e culturais. O seu romance Alguns Homens, Duas
Mulheres e Eu está construído em torno de uma identidade perdida,
onde solidão e feminino são as peças fundamentais. Também o seu livro de poesia
A Casa e o Cheiro dos Livros institui a casa como o lugar feminino que
acumula esperas, o cheiro dos livros, os restos do amor, os gatos que aí se
resguardam da chuva. Para a Autora – já distinguida com alguns prémios
literários – , a casa pode ser considerada como um mundo onde se encerra tudo
aquilo que vai perdurando, mesmo que sob a forma da memória,
nostalgicamente.
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