domingo, 28 de abril de 2013

Maria do Rosário Pedreira

 

Já se esquecera a que sabia o sémen
de um estranho. E agora que voltava
sem querer às ruas vermelhas, quase se
arrependia de ter apagado tão depressa
o nojo e a indecência nos caracóis de


 
um menino que haveria de ser sempre

só dela. E como lhe parecia igualmente

viscoso e escorregadio o dinheiro que no fim

lhe entregavam dobrado e à pressa –

tão diferente do cartão limpinho com que


 
as senhoras lhe tinham pago vestidos ao
balcão, na loja que agora dava pena, assim
entaipada. Ai, se o menino soubesse que


era ainda nele e nas suas brincadeiras que

pensava quando agachada ali, durante de um

estranho, abria a boca e fechava os olhos.


MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1110, de 17 de abril 2013


http://youtu.be/H1QunUv41gY

Sem comentários:

Enviar um comentário