Quanto
puderes
Mesmo
que não possas fazer a vida como a queres,
isto
ao menos tenta
quanto
puderes: não a desbarates
nos
muitos contactos do mundo,
na
agitação e nas conversas.
Não
a desbarates arrastando‑a,
e
mudando‑a e expondo‑a
ao
quotidiano absurdo
das
relações e das companhias
até
se tornar um estranho importuno
konstantinos kavafis
biografia:
« Constantine P. Cavafy (Kavafis), nasceu em
Alexandria (Egipto) em 1863. O seu pai
morreu em 1870, deixando a família em precária situação financeira. A sua mãe e
os seus seis irmãos mudaram-se para Inglaterra dois anos depois. Devido à má
administração dos bens da família por parte de um dos filhos, a família foi
forçada a regressar a Alexandria, na pobreza.
Os sete anos
que Kavafis passou em Inglaterra foram importantes na formação da sua
sensibilidade poética. O seu primeiro verso foi escrito em inglês (assinando
'Constantine Cavafy'), e o seu subsequente trabalho
poético demonstra uma familiaridade substancial com a tradição poética inglesa,
em particular as obras de Shakespeare, Browning e Oscar Wilde.
Os anos que
se seguiram, de regresso a Alexandria, representaram tempos de pobreza e
desconforto, mas revelaram-se igualmente significativos no desenvolvimento da
sensibilidade de Kavafis. Este escreveu os seus primeiros poemas - em inglês,
francês e grego - durante este tempo, em que aparentemente também teve as
primeiras relações homossexuais.
Tendo
trabalhado durante 30 anos na Bolsa de Valores Egípcia, Kavafis permaneceu em
Alexandria até à sua morte, que ocorreu em 1933, por motivo de cancro da
laringe. Sabe-se que recebeu a sagrada comunhão da Igreja Ortodoxa pouco antes
de morrer e que o seu último gesto foi desenhar um círculo numa folha branca e
depois colocar um ponto no meio do círculo.
Pelos
contornos da sua história fragmentária, poder-se-ia dizer que a vida mais rica
de Kavafis seria a vida interior sustentada pelas suas relações pessoais e pela
sua criatividade artística.
Embora
Kavafis tenha conhecido inúmeros homens das letras durante as suas viagens a
Atenas, não recebeu o total apreço dos letrados atenienses senão aquando da
publicação da sua colectânea de poemas em 1935. Parece provável que a sua
importância tenha permanecido relativamente irreconhecida antes da sua morte
precisamente pelas mesmas razões que hoje o estabelecem como um dos mais
originais e influentes poetas gregos do século XX: o seu irredutível desapreço,
na idade adulta, pela retórica que então prevalecia entre os poetas da Grécia
continental; a sua quase prosaica frugalidade no uso de figuras de estilo e
metáforas; a sua constante evocação de ritmos falados e coloquialismos; a sua
franca e avant-garde abordagem dos temas homossexuais; a sua
re-introdução dos modos epigramático e dramático que haviam permanecido
largamente abandonados desde os tempos helenísticos; o seu frequentemente
esotérico mas brilhantemente vivo sentido de história; a sua dedicação ao
Helenismo, aliada a um estatuo cinismo relativamente à política; o seu
perfeccionismo estético; a sua criação de um mundo ricamente mítico durante a
sua idade adulta. Estes tributos, possivelmente pouco valorizados na sua época,
hoje estão indubitavelmente entre os que lhe garantirão um lugar duradouro na
tradição literária do mundo ocidental.»
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