Nada do
mundo mais próximo
mas aqueles
a quem negamos a palavra
o amor,
certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que
diz a mulher vestida de sol
quando
caminha no cimo das árvores
«a que
distância da língua comum deixaste
o teu
coração?»
A altura
desesperada do azul
no teu retrato
de adolescente há centenas de anos
a extinção
dos lírios no jardim municipal
o mar desta
baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do
supermercado que se expandem nas gavetas
as
conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas
em família
a fadiga da
corrida domingueira pela mata
as senhas
da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror
que temos
de certos
encontros de acaso
porque
deixamos de saber dos outros
coisas tão
elementares
o próprio
nome
Ouve o que
diz a mulher vestida de sol
quando
caminha no cimo das árvores
«a que
distância deixaste
o coração?»
José
Tolentino Mendonça
de A Que
Distância Deixaste o Coração
Anos 90 e
agora
uma
antologia da nova poesia portuguesa
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