O austríaco Michael Haneke, autor, director e roteirista,
estudou psicologia e filosofia na Universidade de Viena – uma formação que
provavelmente contribui para que apresente maneiras menos idealizadas de ver o
ser humano e as relações. O filme, aliás, apresenta uma lição desconfortável: o
amor não vence tudo e – por mais que tenhamos vivido belas histórias, apreciado
obras de arte, criado filhos, construído relacionamentos – o peso da decadência
sempre nos ronda. Além disso, o filme nos lembra quanto é trabalhoso morrer.
Muito além da angústia propriamente dita, dos dramas
existenciais, do luto, do sofrimento e dos problemas sociais e mesmo das
questões práticas, há imenso esforço – tanto físico quanto psicológico –
envolvido no percurso rumo à morte. E não apenas de quem morre, mas também
daquele que, por necessidade ou por escolha, acompanha esse processo – e, desta
forma, também termina por morrer um pouco.
O director do intrigante A fita branca, que mostra
primórdios da insanidade nazista, e de Cachet, sobre a violência dissimulada,
expõe desta vez os últimos dias de um simpático casal de idosos, Georges,
vivido por Jean-Louis Trintignant, e Anne, interpretada por Emmanuelle Riva.
Num exercício de despojamento, os dois atores – que, quando jovens foram ídolos
do cinema – expõem ao olhar impiedoso das câmeras rostos sulcados pelas rugas,
cabelos ralos e desgrenhados e corpos enfraquecidos.
Já na cena de abertura o espectador – mesmo o mais
desavisado – percebe qual será o desfecho quando bombeiros arrombam a porta do
apartamento do casal, abrem as janelas e constatam o falecimento de Anne,
possivelmente ocorrido há alguns dias. Seu corpo, rodeado de pequenas flores,
foi cuidadosamente arrumado sobre a cama – ela vestida com esmero e penteada.
Meses antes, os dois músicos aposentados viviam uma intimidade marcada pela
ternura: passeiam, vão a um concerto e administram as questões do dia a dia.
Ele elogia a beleza da mulher: “Eu me lembrei de dizer que esta noite você
estava realmente bonita?”. O cenário é um apartamento também antigo, algo
sombrio, porém espaçoso e ainda confortável, repleto de livros, quadros e
discos – objectos que testemunham uma vida marcada pelo gosto pelas artes. Mas
de repente – aliás, como acontece não só nos filmes, mas também na vida –
sobrevém a tragédia: Anne sofre um acidente vascular cerebral que paralisa
metade de seu corpo e a deixa numa cadeira de rodas.
Em Amor, assistimos impotentes à entrada em cena de dois
grandes fantasmas da velhice: a solidão e a dependência. Talvez a desventura
pareça ainda mais inquietante porque os protagonistas são dois intelectuais da
alta burguesia, com recursos culturais e económicos que – pelo menos
teoricamente – deveriam protegê-los da catástrofe.
Enquanto ainda tem condições de se expressar, ela procura
reagir com dignidade. Mesmo abatido, Georges cuida dela delicadamente: ajuda a
despir-se, usar o vaso sanitário, tomar banho e comer. Anne não deixa de dizer
“por favor” e “obrigada”. Mas a angústia e o medo do futuro dominam a ambos a
cada momento. “Prometa-me que não me levará mais ao hospital”, pede a mulher
com a voz tranquila e firme, assim que chegam em casa, após a alta médica.
Embora permaneça em silêncio, o marido irá procurar atender a esse desejo, da
melhor forma que lhe é possível. O compromisso, porém, é penoso: ele assume
pessoalmente a maioria dos cuidados quotidianos, enquanto as condições de Anne
pioram.
No decorrer do filme, os diálogos aparecem gradativamente
mais rarefeitos, não há música de fundo; o que prevalece é a sensação do enorme
esforço físico do marido para levantar a doente, alimentá-la, acompanhá-la ao
banheiro, resignar-se enfim a colocar-lhe o fraldão. Conversa com ela e canta,
mesmo quando Anne não faz mais do que apenas balbuciar. Um dos momentos
impactantes é sua exasperação quando Anne insiste em não comer a papa que ele
lhe oferece às colheradas. Sim, é possível entendê-la: perdeu-se de si mesma de
uma hora para outra, o corpo não responde a seus comandos, está emocionalmente
cansada, profundamente triste e debilitada; a recusa da comida é a recusa da
vida. Ele, por sua vez, exausto e desamparado, tem cada vez mais dificuldade de
sustentar Anne – seja fisicamente, para mudá-la de posição, ou emocionalmente,
para mantê-la viva. Nessa fase, Georges se nega a atender o telefone; por
orgulho ou pudor, não quer receber visitas e expor sua miséria. Anne não deseja
nem ouvir música, há uma progressiva restrição dos interesses e da energia
vital, tudo parece concentrado na mera sobrevivência.
Para aliviar a demanda, Georges chega a contratar duas
enfermeiras, pagas por hora. Porém, ambas pouco envolvidas afectivamente e ele
descobre que ter as profissionais por perto pode ser ainda mais desgastante.
Paralelamente, a frieza e o descomprometimento de Eva, única filha do casal,
vivida Isabelle Huppert, tornam o abandono ainda mais evidente. Ocupada com a
própria vida, se emociona e se “preocupa”, desde que o drama dos pais não
ameace suas prioridades. A única ligação dos idosos com o mundo externo acaba
sendo o casal de prestativos porteiros, que sobem de vez em quando para limpar
um pouco a casa ou, incentivados por gorjetas, fazem compras.
O desafio da trama parece ser dar sentido justamente ao que
escapa ao sentido. Uma metáfora dessa busca parecem ser as cenas do pombo que
insiste em entrar por uma janela aberta e Georges, repetidamente, se empenha em
espantá-lo. Podemos pensá-las como uma representação da realidade inexorável do
envelhecimento e da finitude que ganham espaço por mais que desejemos
afastá-las. Talvez uma das coisas mais tocantes de Amor seja o fato de que é
incomodamente possível, factível, verdadeiro. Poderia ser comigo. Poderia ser
com você. Talvez um dia seja...»
Schubert's "Impromptu, Op. 90 D899 No. 3 in G-Flat Major" performed by Alexandre Tharaud as heard in Michael Haneke's Palme d'Or winner "Amour".
http://youtu.be/-_pQ0UVuHmg
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fonte: http://noticias.psicologado.com/noticias-diversas/em-amor-michael-haneke-mostra-de-maneira-corajosa-o-processo-de-decadencia-fisica-e-psiquica#ixzz2RFWC8wbU******
http://youtu.be/7z2TBqTlT9Q
*****http://youtu.be/xM2IrxXPfMQ
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