quinta-feira, 9 de maio de 2013

XIII - Mário Cesariny

XIII
 e é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir
 é preciso suor
 é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda
 o fogo de artifício
 é preciso o demónio ainda corpolento
 é preciso a rosa sob o cavalinho
 é preciso o revólver de um só tiro na boca
 é preciso o amor de repente de graça
 é preciso a relva de bichos ignotos
 e o lago é preciso digam que é preciso
 é preciso comprar movimentar comércio
 é preciso ter feira nas vértebras todas
 é preciso o fato é preciso a vida
 da mulher cadáver até de manhã
 é preciso um risco na boca do pobre
 para averiguar de como é que eles entram
 é preciso a máquina a quatro mil vóltios
 é preciso a ponte rolante no espaço
 é preciso o porco é preciso a valsa
 o estrídulo o roxo o palavrão de costas
 é preciso uma vista para ver sem perfume
 e outra menos vista para olhar em silêncio
 é preciso o lôgro a infância depressa
 o pêso de um homem é demais aqui
 é preciso a faca é preciso o touro
 é preciso o miúdo despenhado no túnel
 é preciso fôrças para a hemoptise
 é preciso a mosca um por cento doméstica
 é preciso o braço coberto de espuma
 a luz o grito o grande ôlho gelado
 

E é preciso gente para a debandada
 é preciso o raio a cabeça o trovão
 a rua a memória a panóplia das árvores
 é preciso a chuva para correres ainda
 é preciso ainda que caias de borco
 na cama no chôro no rôgo na treva
 é precisa atreva para ficar um verme
 roendo cidades de trapo sem pernas
 


Mário Cesariny
discurso sobre a reabilitação do real quotidiano
 manual de prestidigitação
 assírio e alvim
 1981
http://youtu.be/7bKOzAQibzA

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