segunda-feira, 20 de maio de 2013

As velas ardem até ao fim



O general volta ao seu quarto. No fim do corredor, a ama está à sua espera.

– Agora estás mais tranquilo? – pergunta a ama.

– Sim - diz o general.

Caminham juntos em direcção ao quarto. A ama anda com agilidade, com passos curtos, como se acabasse de se levantar e se apressasse para o seu trabalho matinal. O general avança lentamente, apoiando-se na bengala. Percorrem o corredor, cheio de quadros pendurados na parede. A mancha que indica o lugar do retrato da Krisztina, faz parar o general.

– O quadro – diz – já podes voltar a pô-lo no seu lugar.

– Sim – responde a ama.

– Não tem importância – diz o general.

– Eu sei.

– Boa noite, Nini.

– Boa noite.

A ama ergue-se nas pontas dos pés e com as mãos pequenas, ossudas, de pele amarela e enrugada, desenha o sinal da cruz sobre a testa do ancião. Beijam-se. É um beijo estranho, breve e singular: se alguém o visse, sorria de certeza. Mas como todos os beijos humanos, este também é uma resposta, à sua maneira disforme e terna, a uma pergunta, que não se pode dizer com palavras.


Sandor Márai

As velas ardem até ao fim




«A ação decorre no coração do Império austro-húngaro, em plena viragem do século XIX para o século XX, numa altura em que a situação geopolítica da Europa Central atinge o ponto de ebulição que irá desembocar na Primeira Guerra Mundial, marcada pelo assassinato do herdeiro do Império – o arquiduque Francisco Ferdinando – por um estudante sérvio.
Este período convulsivo termina com a desagregação do mesmo Império e o desaparecimento de todo um mundo associado à mudança das regras a ele inerente.

O romance é construído a duas velocidades e o ritmo, marcado pela presença de dois narradores diferentes.

O narrador não participante descreve os episódios presentes – já depois da segunda grande guerra – algures na atual Eslováquia – pintando um cenário onde se movimentam as principais personagens, como se assistíssemos a um filme mudo, entrecortado por algumas cenas de diálogo, constituídas por frases lacónicas, mas carregadas de subentendidos.

O segundo narrador é, também, a personagem principal cujo discurso, simultaneamente introspetivo e retrospetivo, está intensamente povoado de detalhes tanto no que se refere aos espaços exteriores e interiores, quanto às emoções que o ambiente despoleta, não só no seu íntimo mas, também, nas atitudes exteriores das restantes personagens.

O principal objetivo deste segundo narrador é, precisamente, o de descodificar os motivos que levaram a determinados comportamentos, aparentemente inexplicáveis, por parte daqueles que lhes eram mais próximos.

Ao desejo obsessivo de descobrir os sentimentos
ocultos atrás das ações que lhes estão vinculadas, está ligado uma intensa sede de vingança, erodida, sublimada pelo tempo, mas intacta, na sua essência.

A fome de Verdade é saciada após um longo jantar à luz de velas. Anfitrião e convidado permanecem à mesa tentando, o primeiro, reconstruir o passado, enquanto o segundo se limita a escutar sem, praticamente, intervir. O interpelado está na posição do psicanalista, que ouve o paciente no divã, enquanto as velas ardem até ao fim, iluminando todos os cantos obscuros da mente.

No final, resta apenas a cera derretida nos castiçais. A cera e a dúvida que se desvaneceu pelo calor libertado das velas azuis (azul, símbolo de liberdade) e pelo poder das memórias, cujo impacto evocativo se reflete na expressão do convidado, como a chama da vela que acaba por iluminar todas as sombras da consciência que possam, ainda, subsistir.

O Autor dota este segundo narrador de uma capacidade soberana de pintar a casa palaciana com as cores e emoções sombrias de um mundo extinto.

A forma como Konrád – o amigo –, Krizstina – a esposa –, a mãe do general – e o protagonista – encontravam na música o refúgio ideal para as suas paixões, para a sua rebeldia, é o signo da fatalidade que marca o ritmo do romance.

A música era o lugar secreto que permitia às almas inconformistas serem aquilo que lhes era interdito pela sociedade. Onde o seu Eu recalcado encontrava lugar de expressão. Para Krizstina, era o lugar virtual onde poderia dar largas à sua fome de liberdade; para Konrád, o veículo que lhe permitia realizar o seu desejo de apreço social; para a mãe do general, a possibilidade de fuga à sensação de clausura, omnipresente, num palácio perdido no meio da floresta. A música distingue-os dos comuns mortais e proporciona-lhes momentos de fuga, grandes pequenos desvios, ao caminho que lhes foi predestinado. A música é a voz dissidente dos inadaptados, a expressão de revolta contra o sistema social. A música é a manifestação do individualismo. É por esse mesmo motivo que ela é olhada com desconfiança por uma sociedade militarizada onde o principal imperativo é obedecer. E é, também, por esse mesmo motivo que é considerada perigosa pelas personagens como o general e o seu pai, que estão perfeitamente integrados nesse mesmo sistema. O que não os impede que a admirarem, que seja amada ou mesmo idolatrada pela sociedade vienense...

Mas é a Música a ponte que une e, simultaneamente, traça a fronteira entre ambos os tipos de personagens presentes no romance.

Uma quarta personagem é Nini, a ama do general. É o oposto dos dois outros grandes rebeldes – Konrád e Krizstina. Nini é alguém que se enquadra perfeitamente naquele mundo, em vias de extinção, que é o Império Austro-Húngaro. É a alma gémea do general quanto à forma de exprimir os afectos. E mais: Nini é não só a alma do palácio, mas uma guardiã do lar, aquela que mantém aceso o fogo de Vesta, sem o qual as salas do palácio ficam como que transformadas em túmulos. A casa revive à passagem de Nini. A casa e quem nela habita.

A evolução da trama remete-nos para Freud e para a teoria do recalcamento; para a caracterização das personagens segundo o modelo dos arquétipos de Jung; por outro lado, o tema da rebelião e da traição colocam-nos perante uma intertextualidade com o Génesis da Bíblia na pessoa de Konrád\Lúcifer e Krizstina\Eva.

As velas ardem até ao fim para além de ser um verdadeiro tratado de psicanálise é, também, uma importante obra de reflexão sociológica. Ao tratar a situação na Europa da primeira metade do século XX, o papel do colonialismo na transformação das mentalidades – através das trocas culturais – e, principalmente, a dissertação antropológica acerca das causas residuais que estão na génese da situação no Médio Oriente, transformam-no numa obra de uma atualidade impressionante, pela acuidade das suas análises e poder visionário.

Um livro fora de série de um autor que nos chega do leste europeu e cuja obra só foi devidamente reconhecida após a queda do regime comunista. Ironicamente, Sándor Márai suicidou-se poucos meses antes da queda do Muro de Berlim a confirmar a tendência depressiva manifesta no discurso pessimista e impregnado de uma melancolia crónica.»

Um livro imperdível. Apaixonante.

Cláudia de Sousa Dias
http://youtu.be/7dIbrECLOkw

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