"As mãos negativas", de Marguerite Duras, na
tradução de Miguel Serras Pereira:
"Chamam-se mãos negativas as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenenses da Europa Sul-Atlântica. O contorno destas mãos – pousadas inteiramente abertas na pedra – recebeu um revestimento de cor. As mais das vezes de azul, de negro. Por vezes de vermelho. Não se encontrou qualquer explicação para esta prática.
Diante do oceano
Sob a falésiaSobre a parede de granito
estas mãos
Azuis
E negras
Do azul da água
Do negro da noite
O homem chegou só à grutaFrente ao oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
Ele estava só
O homem só na gruta olhou
no ruídono ruído do mar
a imensidão das coisas
E gritou
Tu que és nomeado tu que és dotado de identidade eu amo-te
Estas mãos
do azul da águado negro do céu
Lisas
Pousando rasgadas no granito cinzento
Para que alguém as tenha visto
Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que
chamava que gritava há trinta mil anos
Eu amo-te
Eu grito que quero amar-te, eu amo-teAmarei quem quer que me ouça gritar
Na terra vazia ficarão estas mãos sobre a parede de granito frente ao fragor do oceano
Insustentável
Ninguém mais ouvirá
Nem verá
rinta mil anos
Essas mãos, negras
A refração da luz no mar faz fremir a parede de pedra
Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que gritava nesta
luz branca
O desejo
A palavra não foi ainda inventada
Olhou a imensidão das coisas no fragor das vagas, a
imensidão da sua força
E depois gritou
Por cima dele as florestas da Europa,sem fim
Ele permanece no centro da pedra
dos corredores
das estradas de pedrade todos os lados
Tu que és nomeado tu que és dotado de identidade eu amo-te
com um amor indefinido
Era preciso descer a falésiavencer o medo
O vento sopra do continente repele
o oceano
As vagas lutam contra
o vento
Avançam
travadas pela sua
forçae pacientemente alcançam
a parede
Tudo se esmaga
Eu amo-te mais longe que tu
Amarei quem quer que
me ouça gritar que te amo
Trinta mil anos
Eu chamo
Eu chamo aquele que me responderáEu quero amar-te eu amo-te
Há trinta mil anos grito diante do mar o espectro branco
Eu sou aquele que gritava que te chamava, a ti"
Marguerite Duras (1978)
Art by Karen Hollingsworth
http://youtu.be/ELfduUvVSAI
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