domingo, 26 de maio de 2013

"As mãos negativas"


"As mãos negativas", de Marguerite Duras, na tradução de Miguel Serras Pereira:

"Chamam-se mãos negativas as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenenses da Europa Sul-Atlântica. O contorno destas mãos – pousadas inteiramente abertas na pedra – recebeu um revestimento de cor. As mais das vezes de azul, de negro. Por vezes de vermelho. Não se encontrou qualquer explicação para esta prática.

Diante do oceano
Sob a falésia

Sobre a parede de granito

estas mãos
Azuis

E negras
Do azul da água

Do negro da noite
O homem chegou só à gruta

Frente ao oceano

Todas as mãos têm o mesmo tamanho
Ele estava só

O homem só na gruta olhou
no ruído

no ruído do mar

a imensidão das coisas

E gritou
Tu que és nomeado tu que és dotado de identidade eu amo-te

Estas mãos
do azul da água

do negro do céu

Lisas

Pousando rasgadas no granito cinzento
Para que alguém as tenha visto

Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta mil anos

Eu amo-te
Eu grito que quero amar-te, eu amo-te

Amarei quem quer que me ouça gritar

Na terra vazia ficarão estas mãos sobre a parede de granito frente ao fragor do oceano

Insustentável
Ninguém mais ouvirá

Nem verá
rinta mil anos

Essas mãos, negras
A refração da luz no mar faz fremir a parede de pedra

Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que gritava nesta luz branca
O desejo

A palavra não foi ainda inventada
Olhou a imensidão das coisas no fragor das vagas, a imensidão da sua força

E depois gritou
Por cima dele as florestas da Europa,

sem fim

Ele permanece no centro da pedra

dos corredores
das estradas de pedra

de todos os lados

Tu que és nomeado tu que és dotado de identidade eu amo-te com um amor indefinido
Era preciso descer a falésia

vencer o medo

O vento sopra do continente repele

o oceano
As vagas lutam contra o vento

Avançam
travadas pela sua força

e pacientemente alcançam

a parede

Tudo se esmaga
Eu amo-te mais longe que tu

Amarei quem quer que me ouça gritar que te amo
Trinta mil anos

Eu chamo
Eu chamo aquele que me responderá

Eu quero amar-te eu amo-te

Há trinta mil anos grito diante do mar o espectro branco
Eu sou aquele que gritava que te chamava, a ti"

Marguerite Duras (1978)


Art by Karen Hollingsworth


http://youtu.be/ELfduUvVSAI

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