«É preciso»
A criança ali estava, sentada na sua ilha. Olhava para o mundo e pensava.
A criança viu as guerras. E disse para consigo: é preciso pintar as fardas dos soldados. É preciso, dos canos das espingardas, fazer poleiros para os pássaros e flautas de pastor.
A criança viu a fome. E disse para consigo: é preciso prender as nuvens com um laço e fazê-las lançar chuva sobre os desertos. É preciso abrir ribeiros de água e de leite.
A criança viu a miséria. E disse para consigo: é preciso aprender a somar, a subtrair, a multiplicar e depois a dividir. É preciso aprender a partilhar o dinheiro, o pão, o ar e a terra.
A criança viu os poderosos a dar ordens, a clamar, a decretar. E disse para consigo: é preciso abrir-lhes os olhos ou então pô-los dali para fora.
A criança viu o oceano. E disse para consigo: é preciso lavá-lo e depois olhá-lo e… sonhar.
A criança viu as florestas. E disse para consigo: é preciso aventurar-se e nelas escrever histórias, deitar-se no chão coberto de musgo…a ouvi-las.
A criança viu as lágrimas. E disse para consigo: é preciso aprender a abraçar-se, a não ter medo dos beijos. É preciso aprender a dizer “gosto de ti.”
A criança ergueu a cabeça. Viu a lua com uma bandeira espetada na testa. Que ultraje! E disse para consigo: é preciso tirá-la de lá e pedir-lhe perdão.
Por fim, da sua ilha, a criança olhou para o mundo pela última vez. E depois decidiu…
… nascer.
-- Thierry Lenain, Olivier Tallec
http://youtu.be/F_xKsYc71jA
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