quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mário Cesariny

"É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia/ é preciso dizer azul em vez de dizer pantera / é preciso dizer febre em vez de dizer inocência"
 
 
 inventário:
 
"vinte e quatro tragédias burguesas / dois casais cheios de felicidade / nove mulheres casadas (portuguesas) / e um caso de mendicidade // um coronel reformado um visconde nazi uma sorte adversa /uma vista para o campo uma menina Ester / um prédio em construção dois dedos de conversa / um lindo rapaz que adora perder // uma prostituta elegante dois galos sem crista / uma vida sem vida um defunto a viver uma vida asquerosa / dois carris de ferro o filósofo existencialista / e / um cínico e a esposa"

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«discurso ao príncipe de epaminondas»

"Despe-te de verdades / das grandes primeiro que das pequenas / das tuas antes que de quaisquer outras / abre uma cova e enterra-as /a teu lado / primeiro as que te impuseram eras ainda imbele / e não possuías mácula senão a de um nome estranho / depois as que crescendo penosamente vestiste / a
verdade do pão a verdade das lágrimas / pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela"

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"como a vida sem caderneta / como a folha lisa da janela / como a cadela violeta / - ou a violenta cadela? / como estar egípcio e mudado / no salão do navio de espelhos / como nunca ter embarcado / ou só ter embarcado com velhos // como ter-te procurado tanto / que haja qualquer coisa quebrada / como percorrer uma estrada / com memórias a cada canto / como os lábios prendem o copo / como o copo prende a tua mão / como se o nosso louco amor louco /estivesse cheio de razão"

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hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros

ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir

preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado

Sem Jeito Para o Negócio
[Mário Cesariny, in Manual de Prestidigitação, Assírio & Alvim, 2004]
http://youtu.be/8Ezp0WMTAzc

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