segunda-feira, 20 de maio de 2013

não sei se existe


não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco

no teu modo ternamente animal

de confundir palavras e sentimentos,

num quase-silêncio desabrigado e informe.

um corpo serve para muito pouco,

desde os caprichos da líbido

às infecções urinárias. coisas às vezes

parecidas que disfarçamos com vinho

e com uns restos de astúcia. não me ouças,

se não quiseres. ainda não se perdeu o lume

das mãos redondas com que te despes

a um canto, singularmente igual

ao que de ti recordo num outro Inverno

distante. deixemo-nos ficar esta noite,

enquanto tom waits nos volta a falar

de um camião chamado phantom 309

ou de outra coisa qualquer, singularmente

igual - um pouco mais triste, talvez.

não é isso que importa. também cada um de nós

terá um dia de se despistar ao encontro

de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.

que o vinho não acabe, entretanto, e

que as canções não pereçam nesta noite

cativa do lume mas friamente corrupta.

só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.

eis uma parva verdade a que por vezes regresso,

mais importante decerto do que a sagess de verlaine

ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo

fim da tarde, cumpríamos o amor. deixa lá, no exacto

sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre

nem finge viver. tudo isto é inútil, embora

o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer

quantos anos passaram desde que um ao outro

oferecemos o engano e a miséria de um rosto.

o vinho depressa acabou, e é entre os teus seios

que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
daqui a algumas horas esperar-nos-á,

crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo

absolutamente dispensável. só então saberemos

o que desta noite há-de a memória roubar.

talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas

onomatopeias de uma certeza insegura

- do lado mais esquivo da morte.

mas bastam-me para já as mãos redondas

gentis que fazem chover o teu nome

sobre as ruas desertas do meu coração.
manuel de freitas, in 'os infernos artificiais'

http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/44/noite1.html

http://youtu.be/MfkH2EiQZCU

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