quarta-feira, 24 de abril de 2013

Isabel Moreira. "Constitucionalista, escritora, bloguista, assessora do ministro Luís Amado, filha do ex-presidente do CDS e ex-ministro de Salazar Adriano Moreira, é defensora ardente do casamento das pessoas do mesmo sexo e uma acérrima crítica do fundamentalismo católico. Retrato de uma ansiosa rebelde

Nasceu no dia em que a Constituição foi aprovada. Havia de ser constitucionalista, estava destinado. Mesmo se ela, a quarta dos seis filhos do casal Isabel Lima Mayer e Adriano Moreira, via a luz no Rio de Janeiro, para onde os pais tinham fugido de um país entregue ao furor pré-democrático, e só aos dois anos pisaria Portugal. Não se lembra de nada do Brasil, mesmo se no seu amor pela água ("Tenho de viver num sítio onde se veja água, e adoro nadar, nado distâncias disparatadas") e na cor da pele parece ter trazido um pouco dos trópicos.

Da febre saneadora dos anos revolucionários, em contraste, nada: "Nunca apanhei a conversa do 'fascista'. Sempre senti um grande consenso em relação à figura do meu pai, apesar de ter sido um ministro de Salazar. Mesmo em relação à experiência que teve no parlamento, do que me lembro é que mesmo os adversários o ouviam." Afinal, a experiência havia de ser um pouco ao contrário. Com receio da bagunça que acreditavam ser o sistema de ensino público à época, os pais colocaram Isabel no colégio Mira Rio. "Estive lá dos 3 aos 15. É um colégio da Opus Dei e fez-me muito mal. Foi muito duro para mim criar uma individualidade contra aquilo. A repressão sexual, então, é uma coisa terrível - havia um cardápio de perguntas sobre o sexto mandamento ('guardai castidade sobre pensamentos e palavras') em que o padre nos fazia perguntas do género 'não terás demorado demasiado tempo no banho a contemplar o teu corpo?'. Nunca tinha pensado no meu corpo passei a pensar obsessivamente... e nunca mais parei".

A experiência, que inspirou o segundo livro de Isabel (Uma palavra não basta, editora Prefácio, 2007 - o primeiro é Pessoas só, de 2004, mesma editora), resultou "numa caminhada pesadíssima na minha vida. Só quando leram o livro os meus pais se deram conta." Escrever, que foi também "uma vingança disso, dessa ideia do deus da vingança e não do deus do amor", surgiu então como uma espécie de terapia, por influência de um professor do liceu Rainha D. Amélia, o também escritor Rui Nunes ("a pessoa que mais me marcou na vida"). Daí o nome do seu blogue, Consolação, e o endereço irónico: www.myvictam.blogspot.com."Victam é um anseolítico", informa, com uma gargalhada. "Sofro imenso de ansiedade, e escrevo para não sofrer - todos nós, de maneira ou de outra, carregamos a nossa história. E a minha é no sentido literário muito autobiográfica. Escrevo muito sobre o sofrimento e sobre estados limites de exclusão e inadaptação ao mundo real, e tenho a esperança de comunicar através da escrita com pessoas na mesma situação, e que elas sintam que não são uma aberração."

A ruptura com Deus - primeiro com o deus castigador do Mira Rio e depois com a ideia do divino - veio por fases. "Aos 15 anos o meu pai colocou-me no ensino público. ele queria tirar-me daquilo, o peso da religião vinha sobretudo da família da minha mãe. Descobri o mundo, foi uma derrocada interior muito forte e depois uma felicidade muito grande. Continuei católica por algum tempo, entrei para grupos de reflexão religiosa que falavam de um deus do amor, de um deus pai, o que para mim era uma descoberta espantosa. Era já muito crítica em relação a certas posições da Igreja, por exemplo em relação aos homossexuais, ao papel das mulheres, etc, até que, aos 22 anos, descobri que me faltava o essencial: acreditar. Foi a maior perda da minha vida, perdi Deus. Para mim a morte de Deus foi a morte do sentido. Foi um deserto terrível e na minha família uma grande solidão, porque sou a única. Mas já estão habituados a que seja a pessoa da ruptura." Com o pai, diz, tem "conversas fascinantes sobre a fé". Ambos leram Deus não é grande, o mui ateu livro de Christopher Hitchens. "Gostámos muito e falámos sobre isso."

Entre esta filha e este pai, entre a fervorosa defensora da igualdade e da liberdade que não tem medo de afirmar que os direitos fundamentais não podem ser decididos pela vontade das maiorias e que acusa a cobardia de políticos e juristas que "silenciam o tema do casamento das pessoas do mesmo sexo apesar de o assunto estar em análise no tribunal constitucional" e se diz "infiliável em partidos" e o homem que serviu Salazar como ministro mas, faz ela questão de recordar, "foi preso pela PIDE duas vezes e tem uma irmã comunista", não parece haver tabus nem interditos. Quase uma parábola da democracia - quem dera que do país."

visto em: http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1128186&page=-1

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