Sinfonia de uma noite inquieta
Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar
alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os
vidros para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo,
calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de
Deus).
E, de repente, — nova ordem das
coisas universais agia sobre a cidade — o vento assobiava
no intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas
agitações na altura. Depois a noite fechava-se como um alçapão,
e um grande sossego fazia vontade de ter estado a
dormir.
Não é nos largos campos ou nos
jardins grandes que vejo chegar a primavera. É nas
poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a
verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa
tristeza.
Amo esses largos solitários,
intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles mesmos sem
mais trânsito que as ruas.
São clareiras inúteis, coisas que
esperam, entre tumultos longinquos. São de aldeia na
cidade.
Passo por eles, subo qualquer das
ruas suas afluentes, depois desço de novo essa rua, para
a ele[s] regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a
mesma paz deixa dourar de saudade súbita — sol no ocaso — o
lado que não vira na ida.
Tudo é inútil, e eu o sinto como
tal. Quanto vivi se me esqueceu como se o ouvira
distraído. Quanto serei me não lembra como se o tivera vivido e
esquecido.
Um ocaso de mágoa leve paira vago
em meu torno.
Tudo esfria, não porque esfrie, mas
porque entrei numa ruaestreita e o largo cessou.
O céu do estio prolongado todos os
dias despertava de azul verde baço, e breve se tornava
de azul acinzentado de branco mudo. No ocidente, porém,
era da cor que lhe costumam chamar, a ele todo.
Dizer a verdade, encontrar o que se
espera, negar a ilusão de tudo — quantos o usam na
subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de
maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas
das páginas sóbrias e lidas!
Cosmorama de acontecer amanhã o que
não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazúli
das emoções descontinuas!
Quantas memórias alberga uma
suposição factícia, lembraste, visão somente? E num delírio intersticiado
de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da
água de todos os parques nasce, emoção do fundo da minha
consciência de mim. Sem ninguém os bancos antigos, e as
aléias alastram onde eles estão a sua melancolia de
arruamentos vazios.
Esta madrugada é a primeira do
mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco
quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara
cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente.
Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser.
Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto
por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.
Altos montes da cidade! Grandes
arquiteturas que as encostas íngremes seguram e
engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente
amontoados, que a luz tece de sombras e queimações — sois hoje, sois eu,
porque vos vejo sois o que [...] e amo-vos da amurada
como um navio que passa por outro navio e há saudades
desconhecidas [?] na passagem.
......."(do excerto 94 da Autobiografia Sem Factos do LIVRO DO
DESASSOSSEGO de Fernando Pessoa.")
v/
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=5348
http://youtu.be/TFo244imTT4
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