quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sinfonia de uma noite inquieta


Sinfonia de uma noite inquieta

 
Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser.

Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os vidros para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo, calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de Deus).
E, de repente, — nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade — o vento assobiava no intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas agitações na altura. Depois a noite fechava-se como um alçapão, e um grande sossego fazia vontade de ter estado a dormir.

Não é nos largos campos ou nos jardins grandes que vejo chegar a primavera. É nas poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa tristeza.
Amo esses largos solitários, intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles mesmos sem mais trânsito que as ruas.

São clareiras inúteis, coisas que esperam, entre tumultos longinquos. São de aldeia na cidade.

Passo por eles, subo qualquer das ruas suas afluentes, depois desço de novo essa rua, para a ele[s] regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a mesma paz deixa dourar de saudade súbita — sol no ocaso — o lado que não vira na ida.
Tudo é inútil, e eu o sinto como tal. Quanto vivi se me esqueceu como se o ouvira distraído. Quanto serei me não lembra como se o tivera vivido e esquecido.

Um ocaso de mágoa leve paira vago em meu torno.
Tudo esfria, não porque esfrie, mas porque entrei numa rua
estreita e o largo cessou.

O céu do estio prolongado todos os dias despertava de azul verde baço, e breve se tornava de azul acinzentado de branco mudo. No ocidente, porém, era da cor que lhe costumam chamar, a ele todo.
Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo — quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das páginas sóbrias e lidas!

Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazúli das emoções descontinuas!
Quantas memórias alberga uma suposição factícia, lembraste, visão somente? E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce, emoção do fundo da minha consciência de mim. Sem ninguém os bancos antigos, e as aléias alastram onde eles estão a sua melancolia de arruamentos vazios.

 Noite em Heliópolis! Noite em Heliópolis! Noite em Heliópolis! Quem te dirá as palavras inúteis, me compensará a sangue e indecisão?

 
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.


Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações — sois hoje, sois eu, porque vos vejo sois o que [...] e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas [?] na passagem.
 
......."(do excerto 94 da Autobiografia Sem Factos do LIVRO DO DESASSOSSEGO de Fernando Pessoa.")
v/ http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=5348 http://youtu.be/TFo244imTT4

Sem comentários:

Enviar um comentário