Os olhos perdidos num pedaço de parede, procura
um outro ponto em que os fixasse;e volta-os
para dentro de si, onde outras paredes arruinadas a impedem de ver o que está do outro lado, para
além do campo e do céu. Mas se erguesse os olhos
para o tecto,de estuque aberto para as telhas, fios
de luz dar-lhe-iam um vislumbre do mundo a que
nao pode aceder, e bastar-lhe-ia um pouco de
sonho para encontrar esse vazio a que aspira,
ou apenas o último ângulo entre infinito
e eternidade. Porém, o rosto não se desvia,e
as mãos pousadas no casaco esburacado pela
traça tremem, como se procurasse moldar um
corpo antigo com o barro seco da ausência.
Nuno Júdice in "Fórmulas de uma luz inexplicável"
Publicações Dom Quixote, 2012
http://youtu.be/WUlr_E1Xy2I
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