quarta-feira, 1 de maio de 2013

Como queiras, Amor, como tu queiras

Como queiras, Amor, como tu queiras,
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo,
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico
.
Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.
As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aquarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.
Como queiras, Amor, como tu queiras.
de frágil que és não poderás salvar-me,
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.
Será mais duro que morrer, talvez
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.
Como queiras, Amor, como tu queiras.
 
Jorge de Sena, in «Poesia vol. I e II»,
edições 70, Lisboa 1988



Tycho - Past is Prologue http://youtu.be/M5sSUJoYnbk

http://www.rtp.pt/programa/radio/p5603/c115401

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