(para a Manuela)
No princípio, desenvolveu a ideia de que o arco-íris era uma ponte: aparecia sobre os barcos, no fim dos temporais, e o marinheiro da gávea avistava uma mulher de cabelos de ouro, agitados pelo vento, a atravessá-la; alguns desses marinheiros enlouqueceram. Conheceu-os, durante os meses em que estudou os costumes dos portos - sentavam-se à parte, nas tabernas, e acendiam uma vela. Diziam que o brilho da chama evocava os cabelos dourados dessa mulher; e que o azul do álcool os fixava, como um olhar celeste.
Tentou então viver essa experiência: embarcou num velho cargueiro e, durante dois ou três anos, percorreu os mares.
Mas nunca encontrou a deusa; nem os arco-íris formavam o arco completo da ponte que imaginara. Também ele enlouqueceu, e dizem que sobe ao telhado da casa, nas noites de temporal, e grita pelo sol, a quem dá um nome de mulher; até ficar rouco e o trazerem para o quarto. Aí, até adormecer, murmura esse nome sem corpo, sem imagem, sem luz.
NUNO JÚDICE, in POESIA REUNIDA[ (1967-2000) Pub. D.Quixote, 2000)]
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