segunda-feira, 29 de julho de 2013

Escrevendo dentro da noite

Estou escrevendo para não gritar.
Para não acordar
os que dormem felizes lado a lado,
os que repousam, aconchegados,
os
que se encontram e continuam juntos
e não precisam sonhar
porque não dizem adeus...

Estou escrevendo para não gritar.
Para enfunar o coração
ao largo.
 

E as palavras escorrem salgadas
como um córrego de águas mortas
num silencioso pranto.
Tão perto, e nem percebes minha insónia.
Nem ouves a confidência.
que põe nódoas no papel para não ter que acordar-te
e se transmuda em palavras, que são estátuas de sal.

Estou escrevendo para não gritar.
Para não ter tempo de acompanhar a noite,
para não perceber que estou só, irremediavelmente só,
e que te trago comigo
sem outra alternativa que o pensamento
- cela em que me debato a olhar a lua entre grades.

Estou escrevendo para não gritar.
Para não perturbar
os que se amam
se juntam, e se estreitam, e sussurram na sombra
e passeiam ao luar,

para que as palavras chovam num dilúvio,
silenciosamente,
e me alaguem, e me afoguem,
e me deixem pela noite a dentro
como um corpo sem vida e sem alma,
a flutuar...



( Poema de JG de Araújo Jorge
do livro"A Sós..." 1a ed. 1958 )

http://youtu.be/MKUrAHOcKUI

Sem comentários:

Enviar um comentário