«Será que o homem tem para com o animal apenas uma relação despótica? Não será que o homem abandonado e repudiado só na fidelidade do animal encontra um substituto para a ingratidão, as intrigas e a deslealdade do seu semelhante? […] Nas fábulas não
fala também o animal ao coração da criança? Não houve outrora um burro que abriu os olhos a um profeta obstinado?»
(Feuerbach, Para a Crítica da Filosofia de Hegel
S. Francisco de Assis e os animais
O fundador da Ordem Franciscana, porém, não é, na tradição da
hagiologia cristã, um «santo milagreiro». O pedido da intercessão
dos santos, a favor dos animais, é frequentemente acompanhado de
intenções muito interesseiras dos seus devotos, ainda que também
acalentadas por grande afecto. Mas são outros os caminhos que
conduzem os animais e os entusiasmos ecológicos com S. Francisco
de Assis: o encanto deste com os seres vivos, sobretudo com os
mansos – embora o lobo se tivesse rendido às suas admoestações
–, mesmo que repugnantes. Afinal, não são todos eles expressões
da fontal bondade do Criador?
A literatura biográfica da época foi muito sensível a essa singular
característica do Santo. Os textos são múltiplos e variados.
Apresenta-se, seguidamente, um deles, para nele enquadrar os pólos
Apresenta-se, seguidamente, um deles, para nele enquadrar os pólos
Abraçava os seres criados com um amor e um entusiasmo jamais vistos e com eles falava acerca do Senhor, convidando-os a louvá-Lo. Para não apagar com as suas mãos a luz, símbolo da luz eterna, queria que as velas, as lâmpadas e as candeias se extinguissem por si mesmas. Caminhava com respeito por sobre as pedras, reverenciando nelas Aquele que foi chamado Pedra. E sempre que chegava ao versículo do salmo que diz: «Acima do rochedo me ergueste», ele, para maior respeito, mudava assim as palavras: «Aos pés do rochedo me ergueste.»
Aos irmãos que cortavam lenha proibia-lhes arrancarem as árvores completamente, impedindo-as de voltarem a rebentar. Ao cerqueiro mandava que, ao redor da cerca, deixasse uma faixa por cultivar, a fim de que, a seu tempo, o verdor das ervas e a beleza das flores apregoassem a beleza do Pai de todas as coisas. Ordenava também que se destinasse uma porção de horta ao cultivo de flores e plantas aromáticas, a fim de evocarem em quantos as vissem a fragrância da vida eterna.
Afastava do caminho os vermes para não serem pisados, e às abelhas
mandava-lhes servir mel e vinho do melhor, para que não morressem de
inanição no gélido Inverno. Chamava irmãos a todos os animais, embora, entre todos, preferisse os mansos.
Tomás de Celano,Vida Segunda, Capítulo 124.
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