segunda-feira, 29 de julho de 2013
J. S. Bach - Mass in B minor, BWV 232
Envelhecer
“Uma pessoa
envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas,
sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas,
tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já
sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que
um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem
tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o
estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de
repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito
que seja o corpo, a alma ainda está replecta de desejos e de recordações, busca
e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais
resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade,
fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes
porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera
ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode
acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o
invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo
calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a
velhice.”
“Porém, há ainda
algo vivo no teu coração, uma recordação, algum objectivo de vida indefinido,
gostarias de tornar a ver alguém, gostarias de saber ou dizer alguma coisa, e
sabes bem que um dia chegará esse momento e então, de repente, já não será tão
fatalmente importante saber e responder à verdade, como pensaste durante as
décadas de espera. Uma pessoa compreende o mundo, pouco a pouco, e depois
morre. Compreende os fenómenos e a razão das acções humanas. A linguagem
inconsciente… porque as pessoas comunicam as suas razões por símbolos, já
reparaste? Como se falassem numa língua estrangeira ou em chinês, sobre as
coisas essenciais, e depois essa língua estrangeira tem de ser traduzida para a
linguagem da realidade. Não sabemos nada de nós próprios. Falamos sempre sobre
os nossos desejos, e tentamos esconder-nos desesperada e inconscientemente. A
vida torna-se quase interessante, quando já aprendeste as mentiras das pessoas,
e começas a desfrutar e a notar que dizem sempre uma coisa diferente daquilo
que pensam e querem realmente…”
“Por vezes penso no
que ganhámos com toda a nossa inteligência, orgulho e superioridade? Se não
tivesse sido aquela atracção penosa por uma mulher que morreu, qual teria sido
o verdadeiro conteúdo da nossa vida? Sei que é uma pergunta difícil. Eu não sei
responder-lhe. Vivi tudo, vi tudo, e não sei responder a essa pergunta. Vi a
paz e guerra, vi miséria e grandiosidade, vi-te cobarde e vi-me a mim mesmo
vaidoso, vi luta e concordância. Mas no fundo, o significado da vida e das
nossas acções talvez tenha sido esse o laço que nos uniu a alguém – laço ou
paixão, chama-lhe o que quiseres.”
Sándor Márai, in
'As Velas Ardem Até ao Fim'
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