quarta-feira, 8 de maio de 2013

Três quartos de memória

"A intervenção Três quartos de memória, de Daniel Blaufuks, vem da consciência de uma impossibilidade totalizante da memória. A memória do passado é necessariamente lacunar; cheia de falhas, buracos, alternâncias entre ausências e presenças. Dei-me conta desse aspecto quando ele comentou que gostaria de inserir na sua intervenção uma obra chamada Memory landscape (Shoa), que é uma caixa de luz com 30 slides de paisagem retirados de fotogramas do filme Shoa de Claude Lanzmann. O curioso (para minha surpresa) é que as imagens não tinham a presença de pessoas, num episódio da história que é marcado pela destruição brutal dos corpos. Ao contrário, paisagens tranquilas de florestas de pinheiros, que um dos entrevistados do filme diz que foram plantadas para esconder os segredos dos campos de extermínio. A encobrir a dor, a placidez da natureza na sua grandeza inerente. Longe do artista ter tido a intenção de esquecer dessa maneira o ocorrido, ao contrário, essa obra ali está para lembrar o terror nazista que praticamente exterminou toda a população judaica de Vilna, de onde a família Klabin é originária. Mas temos de descobrir por detrás da paisagem a dor escondida. O que desejo fazer ver é que lidar com a memória do passado dessa maneira é perceber a grandeza do imponderável, daquilo que inevitavelmente sobra e do qual nunca daremos conta por completo. É perceber, no abismo do passado, o limite do vazio, cujos contornos nos escapam, e aceitá-lo. O que o artista nos propõe é preencher essa forma sem forma, que é o passado, para que essa ação nos dê o contorno de nossa memória; de nosso presente.

A Fundação Eva Klabin, por ser uma casa e museu, é a materialização da ideia de um passado que se torna presente no futuro. Em outras palavras, como a arte resiste ao tempo ao se fazer presente no tempo. É uma memória, cujos contornos foram estabelecidos por Eva Klabin, como nos indica Blaufuks, na obra Três quartos de memória, a peça-chave da intervenção, que é um filme em vídeo e película super-8, em que os olhos das pinturas da coleção nos remetem a lembranças às quais não temos acesso e que pertencem a um universo cúmplice estabelecido entre a colecionadora e sua coleção. Os olhos das pinturas de Tintoreto, Pietro Roi, Reynolds, Lawrence, Gainsborough nos espreitam do fundo de seus tempos e criam uma atmosfera suspensa que nos aprisiona em uma experiência atemporal, que é a própria duração. Três quartos de memória tem a qualidade, através da maestria com que Blaufuks domina os mecanismos da imagem no cinema, de criar uma atmosfera que nos captura num círculo do tempo do qual não queremos sair e que poderia ser sem fim." ver: http://www.danielblaufuks.com/webnew/video.html http://www.danielblaufuks.com/ http://danielblaufuks.com/webmac/text/doctorspor.html http://youtu.be/m7GN5t-SSiA

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