"A intervenção Três quartos de memória, de Daniel Blaufuks, vem da
consciência de uma impossibilidade totalizante da memória. A memória do passado
é necessariamente lacunar; cheia de falhas, buracos, alternâncias entre
ausências e presenças. Dei-me conta desse aspecto quando ele comentou que
gostaria de inserir na sua intervenção uma obra chamada Memory landscape
(Shoa), que é uma caixa de luz com 30 slides de paisagem retirados
de fotogramas do filme Shoa de Claude Lanzmann. O curioso (para minha
surpresa) é que as imagens não tinham a presença de pessoas, num episódio da
história que é marcado pela destruição brutal dos corpos. Ao contrário,
paisagens tranquilas de florestas de pinheiros, que um dos entrevistados do
filme diz que foram plantadas para esconder os segredos dos campos de
extermínio. A encobrir a dor, a placidez da natureza na sua grandeza inerente.
Longe do artista ter tido a intenção de esquecer dessa maneira o ocorrido, ao
contrário, essa obra ali está para lembrar o terror nazista que praticamente
exterminou toda a população judaica de Vilna, de onde a família Klabin é
originária. Mas temos de descobrir por detrás da paisagem a dor escondida. O que
desejo fazer ver é que lidar com a memória do passado dessa maneira é perceber a
grandeza do imponderável, daquilo que inevitavelmente sobra e do qual nunca
daremos conta por completo. É perceber, no abismo do passado, o limite do vazio,
cujos contornos nos escapam, e aceitá-lo. O que o artista nos propõe é preencher
essa forma sem forma, que é o passado, para que essa ação nos dê o contorno de
nossa memória; de nosso presente.
A Fundação Eva Klabin, por ser uma casa e museu, é a materialização da ideia
de um passado que se torna presente no futuro. Em outras palavras, como a arte
resiste ao tempo ao se fazer presente no tempo. É uma memória, cujos contornos
foram estabelecidos por Eva Klabin, como nos indica Blaufuks, na obra Três
quartos de memória, a peça-chave da intervenção, que é um filme em vídeo e
película super-8, em que os olhos das pinturas da coleção nos remetem a
lembranças às quais não temos acesso e que pertencem a um universo cúmplice
estabelecido entre a colecionadora e sua coleção. Os olhos das pinturas de
Tintoreto, Pietro Roi, Reynolds, Lawrence, Gainsborough nos espreitam do fundo
de seus tempos e criam uma atmosfera suspensa que nos aprisiona em uma
experiência atemporal, que é a própria duração. Três quartos de memória
tem a qualidade, através da maestria com que Blaufuks domina os mecanismos da
imagem no cinema, de criar uma atmosfera que nos captura num círculo do tempo do
qual não queremos sair e que poderia ser sem fim."
ver:
http://www.danielblaufuks.com/webnew/video.html
http://www.danielblaufuks.com/
http://danielblaufuks.com/webmac/text/doctorspor.html
http://youtu.be/m7GN5t-SSiA
Sem comentários:
Enviar um comentário