A mais perfeita imagem
Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão que
lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, uma memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.
Ana Luísa Amaral,2008 in A arte de Ser Tigre, 2003
Biografia (curtíssima)
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
e mais:
imperfeição
Ana Luísa Amaral, 2009 in Inversos, poesia 1990-2010, 2010
Uma botânica da paz: visitação
Tenho uma flor
de que não sei o nome
Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima
Mas estes são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves
Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz
E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou
Deve ser isto
uma espécie de paz:
um segredo botânico
da luz
Ana Luísa Amaral, 2010 in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007
De Lisboa: uma canção inacabada com revisitação e Tejo ao fundo
Unreal city under the brown fog of a winter afternoon
The Wasteland, T.S. Eliot
Cidade Irreal
Coberta por névoa marrom em
um amanhecer de inverno,
The Wasteland, T.S. Eliot
Não será irreal, nem terá,
como a outra, um tamisa a banhá-la,
mas o seu rio, de estuário tão largo como
o céu, não deixa de ser belo
É, por vezes, de muito mais pungente nitidez
do que aquela que encosta a sua pele
às margens
de outros rios (o que inspirou em ninfas
o poeta inglês, ou em louras
guerreiras o músico alemão)
Por aqui, desde fermoso a criador de tal
desejo ardente,
tudo lhe chamaram.
E a cidade que, em momento ignorante de proteica
explosão, lhe herdou a água,
a lenda, as caravelas,
dele herdou outras coisas:
desejos de voar milhares de rimas,
de gentes tão diversas e de noites imensas,
de uma lua tão grande e desviada
da sua rota amena
Nem Jerusalém cega por um homem
que, no rasgar do século,
dela falou, como falou de Londres, de Viena,
de Alexandria ou outras,
ah, doce, corre agora, till I end my song
till I end my song, my song, my
song
Era o verso de Spenser que agora aqui
cabia, original,
numa cidade que nem de irreal,
mas de um azul tão grande, de fachadas
tão renda nas janelas, e de uma mágoa
tão revisitada,
que aquela dos jacintos haveria
de se reconhecer: You,
hipocrite lecteur, mon semblable, mon frère
E o resto: uma canção
inacabada -
Ana Luísa Amaral,2010 in Imagias, 2002
Topografias em quase dicionário
Reaprender o mundo
em prisma novo:
pequena bátega de sol a resolver-se
em cisne,
sereia harmonizando o universo
Só o vento sucumbe
à demais luz,
e só o vento,
como alaúde azul,
repete devagar os mesmos sons:
Não interessa onde estou,
não me faz falta um mapa
de viagem
Os teus dedos traçaram
ligeiríssima rota no meu corpo
e a curva topográfica
sem tempo
aí ficou, como sorriso, ou foz
de um rio sem nome
Não interessa onde estou:
esta linha de abetos ou pinheiros
que em declive se estende, branda,
leve, e se debruça em mar,
pode ser tudo
Pode mesmo ir buscar o cisne
ao verso acima
e colocá-lo aqui, sobre este verso,
agora,
ou desorganizar um terço
da sereia e transformá-la
em ilha resumida
de uma paz qualquer
Não interessa onde
estou
Diz-se que os gregos
tinham cinco formas para falar
de amor.
Nós temos uma só, onde não cabe
o quase paradoxo
de que amor é tudo o que dele sabemos.
Nada mais
Era bom ter no verso
as formas todas, essas palavras todas
sempre à mão: pequeno dicionário
que soubesse de paisagens
de dentro
Não resistir ao tempo
Não sei se os gregos tinham várias
formas para falar da morte,
nem mesmo sei se o amor
foi buscar alguma dessas formas
para se definir
Há literatura que fala do que está
a montante do amor,
mas não lhe está — eros, tanatos,
a sua ligação, o seu estar-entre-
estar
Mas tudo o que se sabe
repete-se em trajecto de sereia,
enigma de sereia
transmutada em cisne
Diz-se que só na morte
o cisne canta.
Mas é preciso organizar o vento
de forma a que o seu passo
seja mais que azul
Peço ao vento algum som,
alguma imagem
que seja tão brilhante e deslumbrada
como estas que aqui estão
à minha frente
Mas não responde o vento,
implausível que é o seu falar
A rota que traçaste permanece,
embora, e o corpo
reconhece-lhe o toque
desses dedos
Onde fica o que está descrito
em verso
no meio de tudo isto?
Onde se escondem as palavras
todas?
Sei que preciso de uma forma nova,
que precisava de palavra nova
para a moldura, ou cor
Era essa aprendizagem
de um olhar
que me faltava agora
— sobra somente o sol
iluminando o sítio onde é inútil
o mapa de viagem
Tudo o resto: inventado
há mais de três mil anos,
por entre templos, degraus onde, sentados:
discípulos de ausente obediência
Recorro ao alaúde,
— mas só o verso fala
e me responde
Traços rimados, círculos
em fogo, fragmentos com que inundam
as palavras já escritas
Colo nelas o selo deste mar
e sonho que são estas as palavras.
Nesta manhã de sol,
olho-as assim,
sabendo-as de algum tempo,
quase templos sagrados em que pinto
o dia a cores,
que nem herdadas de mil gerações
Numa tradição nula de viagem,
são o único ponto
a resistir
Tudo o resto: invenção
mais que plasmada,
multiplicados séculos
por cem
Mais de quatro mil anos
sobre o tempo novo,
e nada novo abaixo
deste sol
Talvez só este
abismo.
Interrompo no mapa
o precipício?
No traço dos teus dedos,
rota onde quase cabem: sereia,
o alaúde, o tempo,
nessa rota
— o suspendo
Ana Luísa Amaral,2009 in A Génese do Amor, 2005
Etimologias
Sei o teu carro de cor:
a forma leve dos bancos,
a angústia de cada vidro,
a cor de cada junção
Sei de cor a tua mão
atravessada por dentro
do carro que sei de cor:
cada traço repetido
em impressão digital,
a forma de cada dedo
por dentro da tua mão
A sintaxe repetida
do carro que sei de cor
(etimologicamente:
por dentro do coração)
Ana Luísa Amaral,2012 in Inversos, poesia 1990-2010, 2010
http://youtu.be/YM5BIlBNXrQ
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