domingo, 30 de junho de 2013
sábado, 29 de junho de 2013
SIDDHARTHA
“Deus deixa o Homem em silêncio, deixa-o só para nomear as outras coisas vivas. É o verdadeiro Génesis do tempo. Em boa verdade, Deus não sabe o que quer. É a finitude Deus. Deus "é aquele que é" sem saber o que irá ver, como o poeta que entra em cena para nomear os outros seres vivos. Algo como quando se diz " tu verás aquilo que vires" ignorando o que irá acontecer. Algo como um escolher entre caminhos, e a escolha não nos permite saber onde o caminho escolhido nos levará.” – (Vitor Almeida, inspirado em Derrida e Heidegger)
"A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre." - (Clarice Lispector)
http://pt.scribd.com/doc/105516438/Hermann-Hesse-Sidarta-Rev
"A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre." - (Clarice Lispector)
http://pt.scribd.com/doc/105516438/Hermann-Hesse-Sidarta-Rev
Being There - Tord Gustavsen Trio
http://youtu.be/zpGyv-hxm20**********http://pt.scribd.com/doc/7007678/Hermann-Hesse-Sidarta***********http://youtu.be/Mv6VDoOeWYA
Segure o infinito na palma da sua mão
Para
ver o mundo num grão de areia,
e o céu numa flor silvestre:
Segure o infinito na palma da sua mão,
E a eternidade em uma hora.
William Blake (1757 - 1827)
e o céu numa flor silvestre:
Segure o infinito na palma da sua mão,
E a eternidade em uma hora.
William Blake (1757 - 1827)
http://youtu.be/-fP41dlRXRQ
No ponto onde o silêncio
"No
ponto onde o silêncio
No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio."
Sophia de Mello Breyner Andresen
amando de uma só vida
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida
Mia Couto
http://youtu.be/4_oSz4fbYAM
Siddhartha - Hermann Hesse Kamala
A ogni passo del suo cammino Siddharta imparava qualcosa di nuovo, poiché il mondo era trasformato e il suo cuore ammaliato. Vedeva il sole sorgere sopra i monti boscosi e tramontare oltre le lontane spiagge popolate di palme. Di notte vedeva ordinarsi in cielo le stelle, e la falce della luna galleggiare come una nave nell'azzurro. Vedeva alberi, stelle, animali, nuvole, arcobaleni, rocce, erbe, fiori, ruscelli e fiumi; vedeva la rugiada luccicare nei cespugli al mattino, alti monti azzurri e diafani nella lontananza; gli uccelli cantavano e le api ronzavano, il vento vibrava argentino nelle risaie. Tutto questo era sempre esistito nei suoi mille aspetti variopinti, sempre erano sorti il sole e la luna, sempre avevano scrosciato i torrenti e ronzato le api, ma nel passato tutto ciò non era stato per Siddharta che un velo effimero e menzognero calato davanti ai suoi occhi, considerato con diffidenza e destinato a essere trapassato e dissolto dal pensiero, poiché non era realtà: la realtà era al di là delle cose visibili. Ma ora il suo occhio liberato s'indugiava al di qua, vedeva e riconosceva le cose visibili, cercava la sua patria in questo mondo, non cercava la « Realtà », né aspirava ad alcun al di là. Bello era il mondo a considerarlo così: senza indagine, così semplicemente, in una disposizione di spirito infantile. Belli la luna e gli astri, belli il ruscello e le sue sponde, il bosco e la roccia, la capra e il maggiolino, fiori e farfalle. Bello e piacevole andare così per il mondo e sentirsi così bambino, così risvegliato, così aperto all'immediatezza delle cose, così fiducioso. Diverso era ora l'ardore del sole sulla pelle, diversamente fredda l'acqua dei ruscelli e dei pozzi, altro le zucche e le banane. Brevi erano i giorni, brevi le notti, ogni ora volava via rapida come vela sul mare, e sotto la vela una barca carica di tesori, piena di gioia. Siddharta vedeva un popolo di scimmie agitarsi su tra i rami nell'alta volta del bosco e ne udiva lo strepito selvaggio e ingordo. Siddharta vedeva un montone inseguire una pecora e congiungersi con lei.
Tra le canne di una palude vedeva il luccio cacciare affannato verso sera: da-vanti a lui i pesciolini sciamavano a frotte rapida-mente, guizzando e balenando fuor d'acqua impauriti; un'incalzante e appassionata energia si sprigionava dai cerchi precipitosi che l'impetuoso cacciatore ti acciava nell'acqua. Tutto ciò era sempre stato, ed egli non l'aveva mai visto: non vi aveva partecipato. Ma ora sì, vi partecipava e vi apparteneva. Luce e ombra attraversavano la sua vista, le stelle e la luna gli attraversavano il cuore. Cammin facendo Siddharta si ricordò anche di tutto ciò che gli era successo nel giardino Jetavana, della dottrina che vi aveva ascoltato, del Buddha divino, della separazione da Govinda, della conversazione col Sublime. Gli ritornarono alla mente le sue stesse parole, quelle che aveva detto al Sublime, ogni parola, e con stupore si accorgeva che in quella occasione aveva detto cose di cui, allora, non aveva ancora esatta coscienza. Ciò ch'egli aveva detto a Gotama: che il segreto e il tesoro di lui, del Buddha, non era la dottrina, ma l'inesprimibile e. ininsegnabile ch'egli una volta aveva vissuto nell'ora della sua illuminazione, questo era appunto ciò che egli cominciava ora a esperimentare. Di se stesso doveva far ora esperienza. Già da un pezzo s'era persuaso che il suo stesso Io era l'Atman, di natura ugualmente eterna che quella di Brahma tratto da : Siddharta di Hermann HesseKamala
http://youtu.be/EWN-yhrWkpE***********http://www.youtube.com/watch?v=uSICaQ0e5Vw&feature=share&list=PLF13027497B474046
"Tienimi per mano " di Hermann Hesse
Mantenha-me de mãos dadas ao pôr do sol,
quando a luz do dia e a escuridão escorregam o seu pano de estrelas ...
Mantenha-a apertada quando eu não posso viver neste mundo imperfeito ...
Segure-me pela mão ... me leve para onde o tempo não existe ...
Mantenha-o perto da vida difícil.
Segure-me pela mão ... nos dias em que me sinto desorientada ...
me cante a música das estrelas, o doce cântico de vozes respirar ...
Segure a minha mão, e aperte-a forte antes do destino insolente me leve para longe de você ...
Segure a minha mão e não me deixe ir ... nunca ...
Herman Hesse
Tienimi per mano al
tramonto,
quando la luce del giorno
si spegne e l'oscurità fa scivolare il suo drappo di stelle...
Tienila stretta quando non
riesco a viverlo questo mondo imperfetto...
Tienimi per mano...
portami dove il tempo non esiste...
Tienila stretta nel
difficile vivere.
Tienimi per mano... nei
giorni in cui mi sento disorientata...
cantami la canzone delle
stelle dolce cantilena di voci respirate...
Tienimi la mano, e
stringila forte prima che l'insolente fato possa portarmi via da te...
Tienimi per mano e non
lasciarmi andare... mai...Herman Hesse
http://youtu.be/tWVmi8l-vuY
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Guilhermina Suggia plays Kol Nidrei from Max Bruch
Guilhermina Suggia nasceu a 27 de Junho de 1885 no Porto. O seu pai Augusto
Jorge de Menim Suggia era Violoncelista profissional, no real Teatro São Carlos
professor no conservatório de Lisboa e mais tarde no conservatório do Porto.
Guilhermina tinha uma irmã três anos mais velha - Virgínia - notável pianista. O
pai de Guilhermina foi naturalmente o seu primeiro professor sendo rapidamente
notório o talento de Guilhermina que com a sua irmã rapidamente se tornaram
conhecidas no ciclos culturais do Porto.
Em 1896 Guilhermina e a sua irmã estreiam-se no Teatro Gil Vicente no Porto num programa que incluía um andante de Haydn e variações. Depois disso vários outros concertos se seguiram impulsionados pela existência na cidade do Porto de uma forte promoção cultural liderada pelo violinista e maestro Bernardo Valentim Moreira de Sá.
É neste ambiente de efervescência cultural que com o Orfeão Portuense trás à Invicta cidade do Porto os maiores músicos de então que Pablo Casals (sim um dos outros nomes que estavam a votação) é contratado pelo casino de Espinho. O pai de Guilhermina arranja então maneira da menina prodígio então com 13 anos tocar para o já conceituado violoncelista então com 22 anos. Pablo Casals reconheceu de imediato o potencial da jovem tendo-lhe dado várias lições. Não se conhece exactamente o que Casals terá ensinado nessas aulas embora seja provável que tenha mostrado a Suggia as suites para Violoncelo de Bach e que a tenha confrontado com a forma francesa de tocar o Violoncelo mais "livre" do que a escola alemã com a qual Suggia estava habituada.
Em 1901 Guilhermina Suggia passa a fazer parte do Quarteto Moreira de Sá juntamente com o Violinista Bernardo Valentim Moreira de Sá o fundador do quarteto e impulsionador da vida cultural portuense e de quem já falamos, o violinista Henrique Carneira e o violetista Benjamin Gouveia. Este quarteto viria a dar mais de 50 concertos e esteve na base do sucesso de Guilhermina não só pelo que aprendeu mas também pelo facto de terem sido os sucessos destes concertos que levaram o grupo a ser convidado a tocar no Palácio das Necessidades para a Raínha Dona Amélia.
No fim desse concerto a Raínha terá perguntado à jovem Suggia qual o seu maior desejo ao que Guilhermina respondeu "estudar o violoncelo o melhor possível".
via http://guiadamusicaclassica.blogspot.pt/search/label/Guilhermina%20Suggia http://youtu.be/IIGR6OJji04
Em 1896 Guilhermina e a sua irmã estreiam-se no Teatro Gil Vicente no Porto num programa que incluía um andante de Haydn e variações. Depois disso vários outros concertos se seguiram impulsionados pela existência na cidade do Porto de uma forte promoção cultural liderada pelo violinista e maestro Bernardo Valentim Moreira de Sá.
É neste ambiente de efervescência cultural que com o Orfeão Portuense trás à Invicta cidade do Porto os maiores músicos de então que Pablo Casals (sim um dos outros nomes que estavam a votação) é contratado pelo casino de Espinho. O pai de Guilhermina arranja então maneira da menina prodígio então com 13 anos tocar para o já conceituado violoncelista então com 22 anos. Pablo Casals reconheceu de imediato o potencial da jovem tendo-lhe dado várias lições. Não se conhece exactamente o que Casals terá ensinado nessas aulas embora seja provável que tenha mostrado a Suggia as suites para Violoncelo de Bach e que a tenha confrontado com a forma francesa de tocar o Violoncelo mais "livre" do que a escola alemã com a qual Suggia estava habituada.
Em 1901 Guilhermina Suggia passa a fazer parte do Quarteto Moreira de Sá juntamente com o Violinista Bernardo Valentim Moreira de Sá o fundador do quarteto e impulsionador da vida cultural portuense e de quem já falamos, o violinista Henrique Carneira e o violetista Benjamin Gouveia. Este quarteto viria a dar mais de 50 concertos e esteve na base do sucesso de Guilhermina não só pelo que aprendeu mas também pelo facto de terem sido os sucessos destes concertos que levaram o grupo a ser convidado a tocar no Palácio das Necessidades para a Raínha Dona Amélia.
No fim desse concerto a Raínha terá perguntado à jovem Suggia qual o seu maior desejo ao que Guilhermina respondeu "estudar o violoncelo o melhor possível".
via http://guiadamusicaclassica.blogspot.pt/search/label/Guilhermina%20Suggia http://youtu.be/IIGR6OJji04
Toots & The Maytals - Funky Kingston
Everybody, give it to me huh
Hey Hey Hey
I want you to believe every word I say
I want you to believe every thing I do
I said music is what I've got to give
and I've got to find some way to make it
Music is what I've got baby
I want you to come on and shake it
shake it shake it baby
oh yeah hey
na na na...
oh yeah..na na na
Funky (x3)
Funky Kingston, is what I've got for you
oh yeah
Funky Kingston, yeah is what I've got for you
Funky Kingston
oh yeah
Lemme hear your funky guitar
yo reggae
hear the piano, stick it to me
watch me now
you watch me now
Playing from east to west yeah
I just play from north to south, yeah
I love black America
people keep on asking me for
Funky Kingston
But I ain't got none
somebody take it away from me http://youtu.be/RmP-4qsfr2w
ABSOLVIÇÃO
Incendeiam-me ainda os beijos que não me deste
E cegam-me os acenos que não me fizeste
Da janela irreal onde o teu vulto
Era uma alucinação dos meus sentidos.
Mas, decorrida a vida, e oculto
Nestes versos doridos,
A saber que não sabes que te amei
E cantei,
E nem mesmo imaginas quem eu sou
E como é solitária e dói a minha humanidade,
Em vez de te acusar,
E me culpar,
Maldigo o arbítrio da fatalidade
Que cruelmente nos desencontrou.
Miguel Torga
Aguaviva - Poetas andaluces (1975)
Poetas Andaluces | Poetas da Andaluzia |
| ¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora? | O que os poetas andaluzes cantar agora? |
| ¿qué miran los poetas andaluces de ahora? | Veja o que os poetas andaluzes agora? |
| ¿qué sienten los poetas andaluces de ahora? | O que os poetas andaluzes se sente agora? |
| Cantan con voz de hombre | Eles cantam com a voz do homem |
| pero, ¿dónde los hombres? | mas onde os homens? |
| Con ojos de hombre miran | Olhando para o homem com os olhos |
| pero, ¿dónde los hombres? | mas onde os homens? |
| Con pecho de hombre sienten | Homem com peito sente |
| pero, ¿dónde los hombres? | mas onde os homens? |
| Cantan, y cuando cantan parece que están solos | Eles cantam, eles cantam e eles parecem estar sozinho |
| Miran, y cuando miran parece que están solos | Olhe, e quando olham parece estar sozinho |
| Sienten, y cuando sienten parece que están solos | Sentem-se, e quando eles parecem sentir-se sozinho |
| ¿Qué cantan los poetas, poetas andaluces de ahora? | O que os poetas cantam, poetas andaluzes agora? |
| ¿Qué miran los poetas, poetas andaluces de ahora? | O que você está procurando poetas, poetas andaluzes agora? |
| ¿Qué sienten los poetas, poetas andaluces de ahora? | Como você se sente os poetas, poetas andaluzes agora? |
| Y cuando cantan, parece que están solos | E quando cantam, parece que eles estão sozinhos |
| Y cuando miran, parece que están solos | E quando você olha, parece que eles estão sozinhos |
| Y cuando sienten, parece que están solos | E quando eles sentem, pensam que estão sozinhos |
| Y cuando cantan, parece que están solos | E quando cantam, parece que eles estão sozinhos |
| Y cuando miran, parece que están solos | E quando você olha, parece que eles estão sozinhos |
| Y cuando sienten, parece que están solos | E quando eles sentem, pensam que estão sozinhos |
| Pero, ¿dónde los hombres? | Mas onde os homens? |
| ¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie? | Não Andaluzia já não tem mais ninguém? |
| ¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie? | Será que em Andaluzia ninguém? |
| ¿que en los campos y mares andaluces no hay nadie? | O que no campo andaluz e mares ninguém? |
| ¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta, | Não está lá e que respondem à voz do poeta, |
| quien mire al corazón sin muro del poeta? | quem olhar para o coração do poeta sem paredes? |
| Tantas cosas han muerto, que no hay más que el poeta | Tanta coisa já morreu, não mais do que o poeta |
| Cantad alto, oireis que oyen otros oidos | Cante alto, outros ouvidos que ouvem ouvirão |
| Mirad alto, vereis que miran otros ojos | Olhe alta, olhar você vai ver que os outros olhos |
| Latid alto, sabreis que palpita otra sangre | Arterial elevada Latid saberão que bate outra |
| No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo encerrado | Não profunda do poeta em seu porão escuro bloqueado |
| Su canto asciende a más profundo, cuando abierto en el aire | Sua música sobe para mais, quando ao ar livre |
| ya es de todos los hombres | é de todos os homens |
| Y ya tu canto es de todos los hombres | E sua música é de todos os homens |
| Y ya tu canto es de todos los hombres | E sua música é de todos os homens |
| Y ya tu canto es de todos los hombres | E sua música é de todos os homens |
| Y ya tu canto es de todos los hombres (bis) | E sua música é de todos os homens (bis) |
Mulheres de Atenas - Ney Matogrosso (1976)
Mulheres de Atenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas
Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridosBravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos,
Os novos filhos de Atenas.
Elas não têm gosto ou vontade,
Nem defeito, nem qualidade;
Têm medo apenas.
Não tem sonhos, só tem presságios.
O seu homem, mares, naufrágios...
Lindas sirenas, morenas.
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
http://youtu.be/7cpwyDJI93w
Secos e Molhados - O Vira
O grupo
Secos e Molhados,
tem uma música bastante conhecida chamada
O Vira, de João Ricardo e Luli, baseada nas histórias de lobisomem.
Eis a letra:
O gato preto cruzou a estrada/ Passou por debaixo da escada/
E lá no fundo azul/ Da noite da floresta/ A lua iluminou/
A dança, a roda, a festa/ Vira, vira, vira, homem/ Vira,
vira lobisomem.Bailam corujas e pirilampos/ Entre os sacis e as fadas
E lá no fundo azul/ Na noite da floresta
A lua iluminou
A dança, a roda, a festa/Vira, vira, vira, homem/ Vira,
vira lobisomem.
"Essa é uma releitura de uma lenda, associada muitas vezes ao universo infantil. Mas quem canta é Ney Matogrosso,
ainda no grupo
ecos e Molhados, com seu rosto
pintado e suas coreografias ousadas. Tanto
O Vira quanto
As Mariposa
são músicas que têm sido recebidas, com entusiasmo,
pelas crianças. Mas por quê?
"Observa-se que as crianças tendem a gostar das músicas
às quais têm acesso pela sua família, pelos meios de comunicação
(sobretudo a televisão) ou pelas influências de
amigos. Muitas crianças só escutam aquilo que seus pais
ou irmãos ouvem: uma música feita por e para adultos;
na maioria das vezes, de fácil consumo."
Secos & Molhados - O Patrão Nosso de Cada Dia
Eu quero o amor da flor de cactus
Ela não quis
Eu dei-lhe a flor de minha vida
Vivo agitado
Eu já não sei se sei
De tudo ou quase tudo
Eu só sei de mim, de nós
De todo mundo
Eu vivo preso à sua senha
Sou enganado
Eu solto o ar no fim do dia
Perdi a vida
Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada
Eu só sei de mim
Só sei de mim
Só sei de mim
O patrão nosso de cada dia
Dia após dia
http://youtu.be/7nEf7qDskUc
Wojtyla - Musical "Canção Inesperada" por Diana Castro - Teatro Tivoli
Criativos
Autoria e encenação - Matilde Trocado
Direcção musical - Artur Guimarães
Direcção de actores - Rui Melo
Letras Originais - Paulo Espírito Santo
Cenografia e figurinos - Luís Santos
Desenho de Luz - Paulo Sabino
Programação Showcontrol - Gilles Libert
Audio - Jorge Barata
http://youtu.be/x7_ezpeI46s
uma vibração e algumas palavras
álbum - uma vibração e algumas palavras
por ingrid chavez
neve cai
mais um dia frio
esperando a primavera
esperando por ele
ele é um fio de ouro
me puxando através de
o longo inverno
Eu quero dizer a ele
como eu me sinto quando estou caindo
como meu coração dispara
só de saber que ele está chamando
mas eu não quero assustá-lo
dominá-lo
ele é um estranho pássaro
então eu levá-lo lentamente
apenas uma vibração e algumas palavras
minhas palavras são brasas
aquecendo-o através
outro frio de dezembro
quando ele está acordado
outra noite sem dormir
Eu sei que ele está pensando em mim
eu quero perguntar a ele
se ele sentir que ele está caindo
faz o seu coração disparar
só de saber que ele está me chamando
mas eu não quero assustá-lo
dominá-lo
ele é um estranho pássaro
assim que eu leva-lo lentamente
apenas uma vibração e algumas palavras
A Flutter And Some Words
a flutter and some words
album - a flutter and some words
by ingrid chavez
snow falls
another cold day
waiting for spring
waiting for him
he is a gold thread
pulling me thru
the long winter
i want to tell him
how I feel when I'm falling
how my heart races
just to know that he's calling
but I don't want to scare him
overwhelm him
he's a strange bird
so I take it slowly
just a flutter and some words
my words are embers
warming him thru
another cold december
when he's awake
another sleepless night
i know he's thinking of me
i want to ask him
if he feel like he's falling
does his heart race
just to know that he's calling me
but I don't want to scare him
overwhelm him
he's a strange bird
so i takes it slowly
just a flutter and some words
http://youtu.be/fsxRy-1Df2k
[NÃO DIGAS NADA - A TUA BOCA JÁ ME PERTENCEU]
Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.
Maria do Rosário Pedreira
[in revista Relâmpago, n.º 22, 2008]
Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.
Maria do Rosário Pedreira
[in revista Relâmpago, n.º 22, 2008]
[AS PALAVRAS COMEÇAM A FICAR VELHAS]
As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.
Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim. Não sei se volto.
Maria do Rosário Pedreira
in Poesia Reunida, Quetzal, 2012
As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.
Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim. Não sei se volto.
Maria do Rosário Pedreira
in Poesia Reunida, Quetzal, 2012
MISÉRIA HUMANA
Que são os homens, pois? Da dor triste morada,
Bola de falsa sorte, fogos-fátuos do tempo,
Palco de acres temores, e agudo sofrimento,
Neve logo fundida, e uma vela apagada.
Foge-nos esta vida qual conversa fiada.
Os que ante vós despiram do corpo o fraco manto
E no rol dos defuntos deste açougue entretanto
Seus nomes inscreveram, deles não ficou nada.
Tal como um sonho vão facilmente é esquecido
E corre sem parar o rio não reprimido,
Assim se apagará nosso nome, honra e sorte.
O que agora respira, esfumar-se-á com o ar,
O que vier depois, à cova há-de ir parar.
Que digo? Que nos vamos, qual fumo ao vento forte?
Andreas Gryphius (1616-1664)
in O Cardo e a Rosa (poesia do barroco alemão)
[selecção, tradução e prefácio de João Barrento]
Que são os homens, pois? Da dor triste morada,
Bola de falsa sorte, fogos-fátuos do tempo,
Palco de acres temores, e agudo sofrimento,
Neve logo fundida, e uma vela apagada.
Foge-nos esta vida qual conversa fiada.
Os que ante vós despiram do corpo o fraco manto
E no rol dos defuntos deste açougue entretanto
Seus nomes inscreveram, deles não ficou nada.
Tal como um sonho vão facilmente é esquecido
E corre sem parar o rio não reprimido,
Assim se apagará nosso nome, honra e sorte.
O que agora respira, esfumar-se-á com o ar,
O que vier depois, à cova há-de ir parar.
Que digo? Que nos vamos, qual fumo ao vento forte?
Andreas Gryphius (1616-1664)
in O Cardo e a Rosa (poesia do barroco alemão)
[selecção, tradução e prefácio de João Barrento]
http://youtu.be/HYJJC2wYTLo*********http://youtu.be/fjDsunjVkoQ
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Vidéo Jackie Evancho - « Croire » (para acreditar)
para acreditar
Antes que eu me deito para descansar
Faço ao Senhor um pequeno pedido
Eu sei que tenho tudo o que eu poderia precisar
Mas esta oração não é para mim
Muitas pessoas neste dia
Não têm um lugar tranquilo para ficar
Vamos todos lutar sem cessar que seus filhos possam ver a paz
Limpe suas lágrimas de tristeza para longe
Para acreditar em um dia
Quando a fome ea guerra passará
Para ter a esperança no meio do desespero
Que cada pardal é contado
Que você ouve cada grito e ouvir cada oração
Deixe-me tentar sempre acreditar
Que podemos ouvir os corações que se lamentar
Por favor, ajude-nos a não ignorar
Os clamores dos pobres
Ou a sua dor nunca vai deixar
Para acreditar em um dia
Quando a fome ea guerra passará
Para ter a esperança no meio do desespero
Que cada pardal é contado
Que você ouve seus gritos e ouvir cada oração
Pai, como você vê, eu sou apenas uma criança
E há tanta coisa para entender
Mas se Vossa Graça deve me cercar
Então eu vou fazer o melhor que posso
Eu prometo, eu vou fazer o melhor que posso
Para acreditar em um dia
Quando a fome e a guerra passarão
Para ter a esperança no meio do desespero
Que cada pardal é contado
Que você ouve cada grito e ouvir cada
Oração {Ouça cada grito e ouvir cada oração}
Ajude-nos a fazer a tua vontade oh Pai
Em nome de tudo o que é verdadeiro
E vamos ver no outro
A imagem do amor de você
To believe
Before I lay me down to rest
I ask the Lord one small request
I know I have all I could need
But this prayer is not for me
Too many people on this day
Don't have a peaceful place to stay
Let all fighting cease that your children may see peace
Wipe their tears of sorrow away
To believe in a day
When hunger and war will pass away
To have the hope amidst despair
That every sparrow's counted
That you hear each cry and listen to each prayer
Let me try always to believe
That we can hear the hearts that grieve
Please help us not ignore
The anguished cries of the poor
Or their pain will never leave
To believe in a day
When hunger and war will pass away
To have the hope amidst despair
That every sparrow's counted
That you hear their cries and listen to each prayer
Father, as you see, I'm just a child
And there's so much to understand
But if Your Grace should surround me
Then I'll do the best I can
I promise, I'll do the very best I can
To believe in a day
When hunger and war will pass away
To have the hope amidst despair
That every sparrow's counted
That you hear each cry and listen to each
Prayer {Hear each cry and listen to each prayer}
Help us do Your will oh Father
In the name of all that's true
And we'll see in one another
The loving image of You
I ask the Lord one small request
I know I have all I could need
But this prayer is not for me
Too many people on this day
Don't have a peaceful place to stay
Let all fighting cease that your children may see peace
Wipe their tears of sorrow away
To believe in a day
When hunger and war will pass away
To have the hope amidst despair
That every sparrow's counted
That you hear each cry and listen to each prayer
Let me try always to believe
That we can hear the hearts that grieve
Please help us not ignore
The anguished cries of the poor
Or their pain will never leave
To believe in a day
When hunger and war will pass away
To have the hope amidst despair
That every sparrow's counted
That you hear their cries and listen to each prayer
Father, as you see, I'm just a child
And there's so much to understand
But if Your Grace should surround me
Then I'll do the best I can
I promise, I'll do the very best I can
To believe in a day
When hunger and war will pass away
To have the hope amidst despair
That every sparrow's counted
That you hear each cry and listen to each
Prayer {Hear each cry and listen to each prayer}
Help us do Your will oh Father
In the name of all that's true
And we'll see in one another
The loving image of You
Read more: http://www.muzikum.eu/en/127-11019-183466/jackie_evancho/to_believe-french_translation.html#ixzz2XT05ukus
http://www.muzikum.eu/en/127-11019-183466/jackie_evancho/to_believe-french_translation.html********http://youtu.be/pyUY2CbxmsA
Madame Tutli Putli
Madame Tutli Putli from peter bas on Vimeo.
«Esta é a história existencial de Madame Tutli-Putli que embarca num combóio nocturno, equipada com todos os seus amados pertences, para uma viagem emocionante. Ela está enfrentando os estranhos a bordo e os fantasmas de seu passado, transformando o mundo circundante num cenário de revelação e medo .. . Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, aka Clyde Henry Productions, criou esta história de suspense de uma forma que provavelmente não tenha visto antes. Não é só o filme todo extremamente meticulosamente trabalhado, ele também inclui uma nova maneira de colocar os olhos humanos reais para parar bonecos de movimento individuais. Este efeito, criada pelo artista Jason Walker para o filme, é o primeiro na área de stop motion e certamente garante deixando-o com uma sensação assombrosa única .. Ambos os cineastas passaram anos de dedicação a escrever, dirigir, editar, esculpir, arte-direta, e animar este filme. E o seu resultado notável é um deslumbrante filme misterioso deixando o espectador com uma obra inesquecível de artesanato e um complô para pensar.» http://youtu.be/GGyLP6R4HTE*********http://www.nfb.ca/film/madame_tutli_putli_en/***********http://archief.fontanel.nl/special/madame-tutli-putli/********** http://vimeo.com/17081933
James Blake : Overgrown
Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal.
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostado à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.
(JOSÉ MIGUEL SILVA, PART-TIME)
http://youtu.be/AlaRjP8pg0Q
T.S. ELIOT
DANDO NOME AOS GATOS
Dar nomes aos gatos não é tarefa fácil, decerto...
Não é como um desses jogos que passam em sua mente
Você deve até pensar que eu já não sou muito certo
Quando te digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES
Primeiro há o nome como os que em casa se usam
Como Paulo, Rodolfo, Manoela ou Anamaria
Tal como Wilson ou Francisco, Cinthia ou Susan
Todos sensatamente nomes do dia-a-dia
Há outros, se você achar que soem mais ternos
Uns para os cavalheiros, outros para as damas
Tais como Plato, Admetus, Electra, Demetrius
Mas todos sensatamente nomes em poucas semanas
Mesmo assim acho que um gato precisa de um nome particular
Um nome que lhe seja peculiar, mais que digno de uma rima
Senão, como ele irá deixar o seu rabo perpendicular
Ou ajeitar os seus bigodes e assim manter a sua estima?
De nomes como esses eu posso te dar uma lista
Tais como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato
Talvez Bombalurina, ou Jellylorum já te dê uma pista
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato
Mas entre esses há um outro ainda por vir
E esse nome eu sei que você não irá adivinhar
Um nome que nenhum cientista poderá descobrir
Que SÓ O SEU GATO SABE, mas que jamais irá confessar
Quando você perceber o seu gato em estado de meditação
A razão disso eu te falo é sempre a mesma, vê se pode:
A sua mente está ocupada numa elevada contemplação
Do pensar no pensar do pensar de seu nome:
É o seu inefável efável
Efaninefavelmente
O seu profundo, inecoável e singular nome.
Dar nomes aos gatos não é tarefa fácil, decerto...
Não é como um desses jogos que passam em sua mente
Você deve até pensar que eu já não sou muito certo
Quando te digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES
Primeiro há o nome como os que em casa se usam
Como Paulo, Rodolfo, Manoela ou Anamaria
Tal como Wilson ou Francisco, Cinthia ou Susan
Todos sensatamente nomes do dia-a-dia
Há outros, se você achar que soem mais ternos
Uns para os cavalheiros, outros para as damas
Tais como Plato, Admetus, Electra, Demetrius
Mas todos sensatamente nomes em poucas semanas
Mesmo assim acho que um gato precisa de um nome particular
Um nome que lhe seja peculiar, mais que digno de uma rima
Senão, como ele irá deixar o seu rabo perpendicular
Ou ajeitar os seus bigodes e assim manter a sua estima?
De nomes como esses eu posso te dar uma lista
Tais como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato
Talvez Bombalurina, ou Jellylorum já te dê uma pista
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato
Mas entre esses há um outro ainda por vir
E esse nome eu sei que você não irá adivinhar
Um nome que nenhum cientista poderá descobrir
Que SÓ O SEU GATO SABE, mas que jamais irá confessar
Quando você perceber o seu gato em estado de meditação
A razão disso eu te falo é sempre a mesma, vê se pode:
A sua mente está ocupada numa elevada contemplação
Do pensar no pensar do pensar de seu nome:
É o seu inefável efável
Efaninefavelmente
O seu profundo, inecoável e singular nome.
T.S.
ELIOT
Tradução: Fernando Koproski
Thomas Stearns Eliot, poeta norte-americano, nasceu em 1888. É autor de The
Waste Land (1922), um dos poemas capitais do século XX. Estudioso da
poética simbolista, assimilou influências de Jules Laforgue em sua primeira
fase, como em Prufrock and Other Poems (1919). Ao lado de Ezra Pound, Cummings
e James Joyce, esteve na vanguarda da literatura de língua inglesa. Dirigiu a
revista Criterion e foi crítico atuante. Após mudar-se para a Inglaterra,
converteu-se à religião anglicana, tornou-se monarquista e obteve a cidadania
inglesa. Em sua última fase, adotou uma estética classicizante e com viés
filosófico, como nos Four Quartets (1935-1943). T. S. Eliot escreveu também
ensaios e peças de teatro. Recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1948,
falecendo em 1965.
http://youtu.be/Y2kXzP7-UTc
FEIOS, PORCOS E MAUS
Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.
Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
JOSÉ MIGUEL SILVA
Movimentos no Escuro
(2005)
PERGUNTA OCIOSA
Os gregos ensinaram «paciência»
e «modera o apetite», os cristãos
acrescentaram «compadece-te e perdoa».
Sugestões orientadas para os dias
rigorosos da pobreza ou da velhice,
quando resta carrilar no conformismo
a empenada carruagem do possível.
Numa época, porém, em que os velhos
nada contam e ninguém se penaliza
por viver a curto prazo, na corrida
milionária ao armamento do desejo
(pois o pleito do consolo não se trava
já na alma mas na quina dos sentidos),
a que podemos nós chamar «sabedoria»?
JOSÉ MIGUEL SILVA
Erros Individuais
Relógio D'Água
(2010)
Jorge Afonso À volta da poesia de José Miguel Silva as estrelas murmuram outros sonhos. (2 horas de histórias e músicas com Jorge Afonso...)
http://www.rtp.pt/play/p357/e85600/jorge-afonso
e «modera o apetite», os cristãos
acrescentaram «compadece-te e perdoa».
Sugestões orientadas para os dias
rigorosos da pobreza ou da velhice,
quando resta carrilar no conformismo
a empenada carruagem do possível.
Numa época, porém, em que os velhos
nada contam e ninguém se penaliza
por viver a curto prazo, na corrida
milionária ao armamento do desejo
(pois o pleito do consolo não se trava
já na alma mas na quina dos sentidos),
a que podemos nós chamar «sabedoria»?
JOSÉ MIGUEL SILVA
Erros Individuais
Relógio D'Água
(2010)
Jorge Afonso À volta da poesia de José Miguel Silva as estrelas murmuram outros sonhos. (2 horas de histórias e músicas com Jorge Afonso...)
http://www.rtp.pt/play/p357/e85600/jorge-afonso
PREOCUPAÇÕES NATURAIS
Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.
(José Miguel Silva)
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.
(José Miguel Silva)
Musical Rapture - A Sacred Gift of Celestial Music.
A mais perfeita imagem
Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão que
lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, uma memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.
Ana Luísa Amaral,2008 in A arte de Ser Tigre, 2003
Biografia (curtíssima)
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
e mais:
imperfeição
Ana Luísa Amaral, 2009 in Inversos, poesia 1990-2010, 2010
Uma botânica da paz: visitação
Tenho uma flor
de que não sei o nome
Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima
Mas estes são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves
Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz
E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou
Deve ser isto
uma espécie de paz:
um segredo botânico
da luz
Ana Luísa Amaral, 2010 in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007
De Lisboa: uma canção inacabada com revisitação e Tejo ao fundo
Unreal city under the brown fog of a winter afternoon
The Wasteland, T.S. Eliot
Cidade Irreal
Coberta por névoa marrom em um amanhecer de inverno,
The Wasteland, T.S. Eliot
Não será irreal, nem terá,
como a outra, um tamisa a banhá-la,
mas o seu rio, de estuário tão largo como
o céu, não deixa de ser belo
É, por vezes, de muito mais pungente nitidez
do que aquela que encosta a sua pele
às margens
de outros rios (o que inspirou em ninfas
o poeta inglês, ou em louras
guerreiras o músico alemão)
Por aqui, desde fermoso a criador de tal
desejo ardente,
tudo lhe chamaram.
E a cidade que, em momento ignorante de proteica
explosão, lhe herdou a água,
a lenda, as caravelas,
dele herdou outras coisas:
desejos de voar milhares de rimas,
de gentes tão diversas e de noites imensas,
de uma lua tão grande e desviada
da sua rota amena
Nem Jerusalém cega por um homem
que, no rasgar do século,
dela falou, como falou de Londres, de Viena,
de Alexandria ou outras,
ah, doce, corre agora, till I end my song
till I end my song, my song, my
song
Era o verso de Spenser que agora aqui
cabia, original,
numa cidade que nem de irreal,
mas de um azul tão grande, de fachadas
tão renda nas janelas, e de uma mágoa
tão revisitada,
que aquela dos jacintos haveria
de se reconhecer: You,
hipocrite lecteur, mon semblable, mon frère
E o resto: uma canção
inacabada -
Ana Luísa Amaral,2010 in Imagias, 2002
Topografias em quase dicionário
Reaprender o mundo
em prisma novo:
pequena bátega de sol a resolver-se
em cisne,
sereia harmonizando o universo
Só o vento sucumbe
à demais luz,
e só o vento,
como alaúde azul,
repete devagar os mesmos sons:
Não interessa onde estou,
não me faz falta um mapa
de viagem
Os teus dedos traçaram
ligeiríssima rota no meu corpo
e a curva topográfica
sem tempo
aí ficou, como sorriso, ou foz
de um rio sem nome
Não interessa onde estou:
esta linha de abetos ou pinheiros
que em declive se estende, branda,
leve, e se debruça em mar,
pode ser tudo
Pode mesmo ir buscar o cisne
ao verso acima
e colocá-lo aqui, sobre este verso,
agora,
ou desorganizar um terço
da sereia e transformá-la
em ilha resumida
de uma paz qualquer
Não interessa onde
estou
Diz-se que os gregos
tinham cinco formas para falar
de amor.
Nós temos uma só, onde não cabe
o quase paradoxo
de que amor é tudo o que dele sabemos.
Nada mais
Era bom ter no verso
as formas todas, essas palavras todas
sempre à mão: pequeno dicionário
que soubesse de paisagens
de dentro
Não resistir ao tempo
Não sei se os gregos tinham várias
formas para falar da morte,
nem mesmo sei se o amor
foi buscar alguma dessas formas
para se definir
Há literatura que fala do que está
a montante do amor,
mas não lhe está — eros, tanatos,
a sua ligação, o seu estar-entre-
estar
Mas tudo o que se sabe
repete-se em trajecto de sereia,
enigma de sereia
transmutada em cisne
Diz-se que só na morte
o cisne canta.
Mas é preciso organizar o vento
de forma a que o seu passo
seja mais que azul
Peço ao vento algum som,
alguma imagem
que seja tão brilhante e deslumbrada
como estas que aqui estão
à minha frente
Mas não responde o vento,
implausível que é o seu falar
A rota que traçaste permanece,
embora, e o corpo
reconhece-lhe o toque
desses dedos
Onde fica o que está descrito
em verso
no meio de tudo isto?
Onde se escondem as palavras
todas?
Sei que preciso de uma forma nova,
que precisava de palavra nova
para a moldura, ou cor
Era essa aprendizagem
de um olhar
que me faltava agora
— sobra somente o sol
iluminando o sítio onde é inútil
o mapa de viagem
Tudo o resto: inventado
há mais de três mil anos,
por entre templos, degraus onde, sentados:
discípulos de ausente obediência
Recorro ao alaúde,
— mas só o verso fala
e me responde
Traços rimados, círculos
em fogo, fragmentos com que inundam
as palavras já escritas
Colo nelas o selo deste mar
e sonho que são estas as palavras.
Nesta manhã de sol,
olho-as assim,
sabendo-as de algum tempo,
quase templos sagrados em que pinto
o dia a cores,
que nem herdadas de mil gerações
Numa tradição nula de viagem,
são o único ponto
a resistir
Tudo o resto: invenção
mais que plasmada,
multiplicados séculos
por cem
Mais de quatro mil anos
sobre o tempo novo,
e nada novo abaixo
deste sol
Talvez só este
abismo.
Interrompo no mapa
o precipício?
No traço dos teus dedos,
rota onde quase cabem: sereia,
o alaúde, o tempo,
nessa rota
— o suspendo
Ana Luísa Amaral,2009 in A Génese do Amor, 2005
Etimologias
Sei o teu carro de cor:
a forma leve dos bancos,
a angústia de cada vidro,
a cor de cada junção
Sei de cor a tua mão
atravessada por dentro
do carro que sei de cor:
cada traço repetido
em impressão digital,
a forma de cada dedo
por dentro da tua mão
A sintaxe repetida
do carro que sei de cor
(etimologicamente:
por dentro do coração)
Ana Luísa Amaral,2012 in Inversos, poesia 1990-2010, 2010
http://youtu.be/YM5BIlBNXrQ
Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão que
lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, uma memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.
Ana Luísa Amaral,2008 in A arte de Ser Tigre, 2003
Biografia (curtíssima)
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
e mais:
imperfeição
Ana Luísa Amaral, 2009 in Inversos, poesia 1990-2010, 2010
Uma botânica da paz: visitação
Tenho uma flor
de que não sei o nome
Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima
Mas estes são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves
Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz
E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou
Deve ser isto
uma espécie de paz:
um segredo botânico
da luz
Ana Luísa Amaral, 2010 in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007
De Lisboa: uma canção inacabada com revisitação e Tejo ao fundo
Unreal city under the brown fog of a winter afternoon
The Wasteland, T.S. Eliot
Cidade Irreal
Coberta por névoa marrom em um amanhecer de inverno,
The Wasteland, T.S. Eliot
Não será irreal, nem terá,
como a outra, um tamisa a banhá-la,
mas o seu rio, de estuário tão largo como
o céu, não deixa de ser belo
É, por vezes, de muito mais pungente nitidez
do que aquela que encosta a sua pele
às margens
de outros rios (o que inspirou em ninfas
o poeta inglês, ou em louras
guerreiras o músico alemão)
Por aqui, desde fermoso a criador de tal
desejo ardente,
tudo lhe chamaram.
E a cidade que, em momento ignorante de proteica
explosão, lhe herdou a água,
a lenda, as caravelas,
dele herdou outras coisas:
desejos de voar milhares de rimas,
de gentes tão diversas e de noites imensas,
de uma lua tão grande e desviada
da sua rota amena
Nem Jerusalém cega por um homem
que, no rasgar do século,
dela falou, como falou de Londres, de Viena,
de Alexandria ou outras,
ah, doce, corre agora, till I end my song
till I end my song, my song, my
song
Era o verso de Spenser que agora aqui
cabia, original,
numa cidade que nem de irreal,
mas de um azul tão grande, de fachadas
tão renda nas janelas, e de uma mágoa
tão revisitada,
que aquela dos jacintos haveria
de se reconhecer: You,
hipocrite lecteur, mon semblable, mon frère
E o resto: uma canção
inacabada -
Ana Luísa Amaral,2010 in Imagias, 2002
Topografias em quase dicionário
Reaprender o mundo
em prisma novo:
pequena bátega de sol a resolver-se
em cisne,
sereia harmonizando o universo
Só o vento sucumbe
à demais luz,
e só o vento,
como alaúde azul,
repete devagar os mesmos sons:
Não interessa onde estou,
não me faz falta um mapa
de viagem
Os teus dedos traçaram
ligeiríssima rota no meu corpo
e a curva topográfica
sem tempo
aí ficou, como sorriso, ou foz
de um rio sem nome
Não interessa onde estou:
esta linha de abetos ou pinheiros
que em declive se estende, branda,
leve, e se debruça em mar,
pode ser tudo
Pode mesmo ir buscar o cisne
ao verso acima
e colocá-lo aqui, sobre este verso,
agora,
ou desorganizar um terço
da sereia e transformá-la
em ilha resumida
de uma paz qualquer
Não interessa onde
estou
Diz-se que os gregos
tinham cinco formas para falar
de amor.
Nós temos uma só, onde não cabe
o quase paradoxo
de que amor é tudo o que dele sabemos.
Nada mais
Era bom ter no verso
as formas todas, essas palavras todas
sempre à mão: pequeno dicionário
que soubesse de paisagens
de dentro
Não resistir ao tempo
Não sei se os gregos tinham várias
formas para falar da morte,
nem mesmo sei se o amor
foi buscar alguma dessas formas
para se definir
Há literatura que fala do que está
a montante do amor,
mas não lhe está — eros, tanatos,
a sua ligação, o seu estar-entre-
estar
Mas tudo o que se sabe
repete-se em trajecto de sereia,
enigma de sereia
transmutada em cisne
Diz-se que só na morte
o cisne canta.
Mas é preciso organizar o vento
de forma a que o seu passo
seja mais que azul
Peço ao vento algum som,
alguma imagem
que seja tão brilhante e deslumbrada
como estas que aqui estão
à minha frente
Mas não responde o vento,
implausível que é o seu falar
A rota que traçaste permanece,
embora, e o corpo
reconhece-lhe o toque
desses dedos
Onde fica o que está descrito
em verso
no meio de tudo isto?
Onde se escondem as palavras
todas?
Sei que preciso de uma forma nova,
que precisava de palavra nova
para a moldura, ou cor
Era essa aprendizagem
de um olhar
que me faltava agora
— sobra somente o sol
iluminando o sítio onde é inútil
o mapa de viagem
Tudo o resto: inventado
há mais de três mil anos,
por entre templos, degraus onde, sentados:
discípulos de ausente obediência
Recorro ao alaúde,
— mas só o verso fala
e me responde
Traços rimados, círculos
em fogo, fragmentos com que inundam
as palavras já escritas
Colo nelas o selo deste mar
e sonho que são estas as palavras.
Nesta manhã de sol,
olho-as assim,
sabendo-as de algum tempo,
quase templos sagrados em que pinto
o dia a cores,
que nem herdadas de mil gerações
Numa tradição nula de viagem,
são o único ponto
a resistir
Tudo o resto: invenção
mais que plasmada,
multiplicados séculos
por cem
Mais de quatro mil anos
sobre o tempo novo,
e nada novo abaixo
deste sol
Talvez só este
abismo.
Interrompo no mapa
o precipício?
No traço dos teus dedos,
rota onde quase cabem: sereia,
o alaúde, o tempo,
nessa rota
— o suspendo
Ana Luísa Amaral,2009 in A Génese do Amor, 2005
Etimologias
Sei o teu carro de cor:
a forma leve dos bancos,
a angústia de cada vidro,
a cor de cada junção
Sei de cor a tua mão
atravessada por dentro
do carro que sei de cor:
cada traço repetido
em impressão digital,
a forma de cada dedo
por dentro da tua mão
A sintaxe repetida
do carro que sei de cor
(etimologicamente:
por dentro do coração)
Ana Luísa Amaral,2012 in Inversos, poesia 1990-2010, 2010
http://youtu.be/YM5BIlBNXrQ
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