quarta-feira, 16 de outubro de 2013

José Luís Peixoto "A Mãe Que Chovia"

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De manhã, quando o rapaz saiu à rua, meio ensonado, meio rameloso, estava um boneco de neve a olhar para ele. Era uma boneca de neve. Quando o rapaz acabou de esfregar os olhos, ainda lá estava.

Não se soube quem a tinha feito. Podiam ter sido meninos que acordaram muito cedo e passaram por ali, ou podia ter sido a mãe que, floco após floco, mediu a quantidade de neve que fez cair naquele lugar preciso e, desse modo paciente, esculpiu aquela boneca.
Mas há poucas coisas mais tristes do que ver a própria mãe a derreter.

Nesse ano, antes do Verão, o rapaz começou a ficar a coitado. A mãe notava-lhe a voz sumida, a falta de apetite para o riso, e chovia preocupada. Fazia-lhe perguntas que começavam com «porquê» e ele respondia:
- A-ã.
A chuva teve paciência, esperou. Então, num momento escolhido por ele, o filho pediu-lhe:

- Mãe, não vás. Por favor, não vás.
Depois de meses, voltou o Verão. Trazia sol e grilos para cantarem à noite, trazia férias e piqueniques. A chuva esperava-o, dona de uma promessa feita ao seu filho e de uma força líquida.

A sorrir, o Verão perguntou-lhe:
- Ainda estás por cá?

A chuva, mãe, misturou-se com o sol, traçou um arco-íris e respondeu:
- Desculpa, mas este ano não me vou embora.

O Verão, todo molhado, encolheu-se com essas palavras. Esperou um dia, dois, e foi queixar-se ao vento. O vento não é de conversas, blá, blá, blá. Não fez qualquer pergunta à chuva, apenas a empurrou para longe. Ela tentou agarrar-se aos telhados, às árvores, mas não conseguiu. Deixou um rasto de poças de água e, mais uma vez, foi obrigada a chover em países distantes.
E, mais uma vez, a mãe sentiu falta do filho e ficou triste.

E, mais uma vez, o filho sentiu falta da mãe e ficou triste.

Mas se chega sempre o Verão, também chega sempre o Outono. O tempo é redondo como um círculo desenhado no ar com o dedo. E a mãe chegou, entusiasmada, menina, saudades, tantas saudades do seu filho. Choveu a procurá-lo, mas não o encontrou.
Choveu e choveu a procurá-lo, a chamá-lo, mas não o encontrou.

A mãe choveu sobre todas as casas, choveu sobre todas as janelas e olhou lá para dentro. A mãe choveu sobre todas as ruas, as praças, as avenidas, as alamedas, as estradas os carros, os autocarros, os camiões, as motas, os comboios, os campos, os campos de futebol, os campos de ténis, de golfe, de rugby, os campos de tiro ao alvo.
JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in A MÃE QUE CHOVIA (Quetzal, 2012)

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