Desce a noite enrolada em brumas hibernais.
Trágica solidão, vago instante sombrio,
Em que, tonto de medo o olhar não sabe mais
Onde começa o mar e onde acaba o navio
Nem o arfar de uma vaga : o mar parece um rio
De óleo; oxidado o céu de nuvens colossais,
Um zimbório de chumbo acaçapado e frio,
Escondendo no bojo a alma dos temporais.
Nem das águas no espelho o reflexo de um astro.
Apenas o farol, no vértice do mastro
Rubra pupila, a arder, dentro de uma garoa.
E lá vai o navio , espectral, lento e lento,
Como um negro vampiro, enorme sonolento,
Pairando sobre um caos de tênebras, à toa.
Pethion de Villar
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
(Poema Marinha. PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969, p. 147.)
http://spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.pt/
*************************************************************
http://jaymebueno.blogspot.pt/
Sem comentários:
Enviar um comentário