sexta-feira, 27 de setembro de 2013
A Letter From Fred
A Letter From Fred from Green Shoe Studio on Vimeo.
http://www.compassion-training.org/***********http://vimeo.com/70426141
Assertividade: O QUE É, POR QUE É ÚTIL
ASSERTIVIDADE: O QUE É, POR QUE É ÚTIL
E COMO SE APRENDE?
O que é o Comportamento Assertivo?
Comportamento Assertivo
Aqui:
http://www.fc.ul.pt/sites/default/files/fcul/institucional/gapsi/Assertividade.pdf
O que é o Comportamento Assertivo?
Comportamento Assertivo
Aqui:
http://www.fc.ul.pt/sites/default/files/fcul/institucional/gapsi/Assertividade.pdf
LUCIDEZ
ORA AQUI ESTÁ UM HOMEM LÚCIDO
José Pinheiro Neves disse num comentário:
"Concordo totalmente com Lobo Antunes. Essa ideia surge-me muitas vezes. O psicólogo Arno Gruen, autores da esquizo-análise como o psicólogo Felix Guattari, Gregory Bateson, mulheres ligadas ao movimento pós-feminista como a bióloga Donna Haraway, o psicólogo gestaltico Claudio Naranjo, as comunidades mayas no Mexico geridas pelos Zapatistas e por cristãos da teologia da libertação e muitos outros e outras convergem nessa ideia base: a origem desta bestialidade chamada "modo de vida patriarcal capitalista" está na relação de umamãe masculinizada com o seu filho ou filha. As grandes resistentes e heroínas deste tempo de barbárie são as mães e suas amigas e amigos que se recusam a aceitar o mito da superioridade masculina. São as mães que dão um amor incondicional não lamechas. Que resistem miraculosamente à intoxicação dos media e da escola. Escola já dominada em grande parte, apesar das boas intenções de milhares de generosos professores, pelo narcisismo masculinizado de tipo bullying dos pares aparentemente suave mas mais perigoso porque não é detectável. Torna-se por isso necessário defender e praticar uma ecologia profunda que denuncie o horror desta civilização patriarcal. As mães que não se submetem ao mito da superioridade masculina são as autênticas ecologistas e terapeutas da mente. Deveriam ser apoiadas pelos que no Estado ainda têm uma réstia de lucidez. Uma política virada para o abandono progressivo do trabalho assalariado, pelo retorno à mãe-terra, abandono do crescimento violento e masculino em beneficio de uma economia de decrescimento baseada no principio da feminilidade e retorno à terra, na felicidade bruta nacional como sucede no país budista do Butão, às comunidades auto-suficientes, às viagens telepáticas com o coração, etc. Uma utopia realista que não pode ser adiada sob pena de destruição do que resta de vida planetária."
José Pinheiro Neves disse num comentário:
"Concordo totalmente com Lobo Antunes. Essa ideia surge-me muitas vezes. O psicólogo Arno Gruen, autores da esquizo-análise como o psicólogo Felix Guattari, Gregory Bateson, mulheres ligadas ao movimento pós-feminista como a bióloga Donna Haraway, o psicólogo gestaltico Claudio Naranjo, as comunidades mayas no Mexico geridas pelos Zapatistas e por cristãos da teologia da libertação e muitos outros e outras convergem nessa ideia base: a origem desta bestialidade chamada "modo de vida patriarcal capitalista" está na relação de umamãe masculinizada com o seu filho ou filha. As grandes resistentes e heroínas deste tempo de barbárie são as mães e suas amigas e amigos que se recusam a aceitar o mito da superioridade masculina. São as mães que dão um amor incondicional não lamechas. Que resistem miraculosamente à intoxicação dos media e da escola. Escola já dominada em grande parte, apesar das boas intenções de milhares de generosos professores, pelo narcisismo masculinizado de tipo bullying dos pares aparentemente suave mas mais perigoso porque não é detectável. Torna-se por isso necessário defender e praticar uma ecologia profunda que denuncie o horror desta civilização patriarcal. As mães que não se submetem ao mito da superioridade masculina são as autênticas ecologistas e terapeutas da mente. Deveriam ser apoiadas pelos que no Estado ainda têm uma réstia de lucidez. Uma política virada para o abandono progressivo do trabalho assalariado, pelo retorno à mãe-terra, abandono do crescimento violento e masculino em beneficio de uma economia de decrescimento baseada no principio da feminilidade e retorno à terra, na felicidade bruta nacional como sucede no país budista do Butão, às comunidades auto-suficientes, às viagens telepáticas com o coração, etc. Uma utopia realista que não pode ser adiada sob pena de destruição do que resta de vida planetária."
REGRESSO
Regresso
Perguntas? Viajo
na liberdade clara
de um sossegado mar
sem sombras nem relâmpagos
Nada mais do que estar
em natural potência
como num esquecido ninho
de um incessante regresso
Sem nostalgia nem esperança
entro na boca da terra
onde encontro a nascente
e o movimento único
é o sossego presente
António Ramos Rosa, in O Não e o Sim
O estéril amor fecundo de Bernardo Soares
Perguntas? Viajo
na liberdade clara
de um sossegado mar
sem sombras nem relâmpagos
Nada mais do que estar
em natural potência
como num esquecido ninho
de um incessante regresso
Sem nostalgia nem esperança
entro na boca da terra
onde encontro a nascente
e o movimento único
é o sossego presente
António Ramos Rosa, in O Não e o Sim
O estéril amor fecundo de Bernardo Soares
UMA CARTA DE FRED - A LETTER FROM FRED - LEGENDADO PORTUGUÊS - Oh Sweet Lorraine
http://youtu.be/04WvMQmBZM8 http://www.articolotre.com/2013/09/terrore-in-cina-per-i-calabroni-killer-giganti-28-morti-e-decine-di-feriti/208935
País por conhecer, por escrever, por ler...
País por conhecer, por escrever, por ler...
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
País desconfiado a reolhar para cima
um ombro que, com razão duvida.
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.
Nhurro país que nunca se desdiz.
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.
Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.
Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!
(Feira Cabisbaixa – 1965)
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
País desconfiado a reolhar para cima
um ombro que, com razão duvida.
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.
Nhurro país que nunca se desdiz.
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.
Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.
Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!
(Feira Cabisbaixa – 1965)
silêncio
o som das cigarras
penetra as pedras
(Bashô)
(Trad. Paulo Leminski)
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
Alexandre O'Neil
o som das cigarras
penetra as pedras
(Bashô)
(Trad. Paulo Leminski)
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
País do cibinho mastigado
devagarinho.
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
Alexandre O'Neil
PRIMEIRO DOMINGO
Primeiro domingo
A tarde estava errada,
não era dali, era de outro domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.
E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.
Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.
Manuel António Pina
23/4/99
in Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança
(Assírio & Alvim, 1999)
Sociedade Civil (VIII)
Mar português - Episódio 178
Primeira Emissão: 26 Set 2013
Duração: 01h30m
Classificação: . http://www.rtp.pt/play/p1043/e129622/sociedade-civil-viii*********************************************** http://sound--vision.blogspot.pt/2012/10/manuel-antonio-pina-1943-2012.html?spref=fb
A tarde estava errada,
não era dali, era de outro domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.
E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.
Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.
Manuel António Pina
23/4/99
in Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança
(Assírio & Alvim, 1999)
Sociedade Civil (VIII)
Mar português - Episódio 178
Primeira Emissão: 26 Set 2013
Duração: 01h30m
Classificação: . http://www.rtp.pt/play/p1043/e129622/sociedade-civil-viii*********************************************** http://sound--vision.blogspot.pt/2012/10/manuel-antonio-pina-1943-2012.html?spref=fb
Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação.
"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro." - (Milan Kundera,"A Insustentável Leveza do Ser")
http://youtu.be/cN-QfhUseJg
http://youtu.be/cN-QfhUseJg
BORGES
O NOSSO
Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.
Jorge Luis Borges
Tradução de Cleber Teixeira, Walter Costa e Raúl Antelo
OS JUSTOS
Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra exista música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que afaga um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra exista Stevenson.
O que prefere que os outros estejam certos.
Essas pessoas, que se desconhecem , estão salvando o mundo.
Jorge Luis Borges
(Trad. Josely Vianna Baptista)
Elogio de la sombra
La vejez (tal es el nombre que los otros le dan)
puede ser el tiempo de nuestra dicha.
El animal ha muerto o casi ha muerto.
Quedan el hombre y su alma.
Vivo entre formas luminosas y vagas
que no son aún la tiniebla.
Buenos Aires,
que antes se desgarraba en arrabales
hacia la llanura incesante,
ha vuelto a ser la Recoleta, el Retiro,
las borrosas calles del Once
y las precarias casas viejas
que aún llamamos el Sur.
Siempre en mi vida fueron demasiadas las cosas;
Demócrito de Abdera se arrancó los ojos para pensar;
el tiempo ha sido mi Demócrito.
Esta penumbra es lenta y no duele;
fluye por un manso declive
y se parece a la eternidad.
Mis amigos no tienen cara,
las mujeres son lo que fueron hace ya tantos años,
las esquinas pueden ser otras,
no hay letras en las páginas de los libros.
Todo esto debería atemorizarme,
pero es una dulzura, un regreso.
De las generaciones de los textos que hay en la tierra
sólo habré leído unos pocos,
los que sigo leyendo en la memoria,
leyendo y transformando.
Del Sur, del Este, del Oeste, del Norte,
convergen los caminos que me han traído
a mi secreto centro.
Esos caminos fueron ecos y pasos,
mujeres, hombres, agonías, resurrecciones,
días y noches,
entresueños y sueños,
cada ínfimo instante del ayer
y de los ayeres del mundo,
la firme espada del danés y la luna del persa,
los actos de los muertos,
el compartido amor, las palabras,
Emerson y la nieve y tantas cosas.
Ahora puedo olvidarlas. Llego a mi centro,
a mi álgebra y mi clave
a mi espejo.
Pronto sabré quién soy.
Jorge Luis Borges
in «Elogio de la sombra»
ENTARDECERES
A clara profusão de um poente
enalteceu a rua,
a rua aberta como um vasto sonho
para qualquer acaso.
O límpido arvoredo
perde o último pássaro, o ouro último.
A mão andrajosa de um mendigo
agrava a tristeza dessa tarde.
O silêncio que mora nos espelhos
forçou seu cárcere.
A escuridão é o sangue
das coisas feridas.
No ocaso incerto
a tarde mutilada
foi umas pobres cores.
Jorge Luis Borges
in: Primeira Poesia
Tradução: Josely Vianna Baptista
COM LENTO AMOR
Com lento amor olhava os dispersos
Tons da tarde. A ela comprazia
Perder-se na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.
Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado,
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.
Sem se atrever a andar neste perplexo
Labirinto, olhava lá de fora
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.
Jorge Luis Borges-Argentina
via
http://spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.pt/
nada do que é importante se perde verdadeiramente.
“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"
MARINHA
Desce a noite enrolada em brumas hibernais.
Trágica solidão, vago instante sombrio,
Em que, tonto de medo o olhar não sabe mais
Onde começa o mar e onde acaba o navio
Nem o arfar de uma vaga : o mar parece um rio
De óleo; oxidado o céu de nuvens colossais,
Um zimbório de chumbo acaçapado e frio,
Escondendo no bojo a alma dos temporais.
Nem das águas no espelho o reflexo de um astro.
Apenas o farol, no vértice do mastro
Rubra pupila, a arder, dentro de uma garoa.
E lá vai o navio , espectral, lento e lento,
Como um negro vampiro, enorme sonolento,
Pairando sobre um caos de tênebras, à toa.
Pethion de Villar
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
(Poema Marinha. PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969, p. 147.)
http://spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.pt/ ************************************************************* http://jaymebueno.blogspot.pt/
Trágica solidão, vago instante sombrio,
Em que, tonto de medo o olhar não sabe mais
Onde começa o mar e onde acaba o navio
Nem o arfar de uma vaga : o mar parece um rio
De óleo; oxidado o céu de nuvens colossais,
Um zimbório de chumbo acaçapado e frio,
Escondendo no bojo a alma dos temporais.
Nem das águas no espelho o reflexo de um astro.
Apenas o farol, no vértice do mastro
Rubra pupila, a arder, dentro de uma garoa.
E lá vai o navio , espectral, lento e lento,
Como um negro vampiro, enorme sonolento,
Pairando sobre um caos de tênebras, à toa.
Pethion de Villar
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
(Poema Marinha. PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969, p. 147.)
http://spleenbored-minhaspoesiasfavoritas.blogspot.pt/ ************************************************************* http://jaymebueno.blogspot.pt/
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Uma fábula sobre a fábula (Lenda Oriental)
Uma fábula sobre a fábula
(Lenda Oriental)
Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!)
Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia.
Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas
perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:
- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano,o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Verdade!
- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!
Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impúdicos não poderás ir
à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah!
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação.
E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas.
Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. -
Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.
- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.
- Como se chama?
- A Acusação!
- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que
não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.
- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al- Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!
Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.
E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Vestiu-se com ríquissimos trajos, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntoulhe:
- Quem és?
- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso.
- Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão
Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:
- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiância de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Fábula!
- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Benvinda seja a encantadora Fábula: Cem
formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes!
Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E abertas de par em par as portas do grande palácio de
Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!
Minha vida querida. Tahan, Malba. Rio de Janeiro: Conquista, 1957, p.93-98.
(Lenda Oriental)
Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!)
Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia.
Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas
perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:
- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano,o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Verdade!
- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!
Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impúdicos não poderás ir
à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah!
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação.
E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas.
Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. -
Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.
- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.
- Como se chama?
- A Acusação!
- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que
não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.
- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al- Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!
Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.
E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Vestiu-se com ríquissimos trajos, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntoulhe:
- Quem és?
- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso.
- Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão
Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:
- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiância de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Fábula!
- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Benvinda seja a encantadora Fábula: Cem
formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes!
Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E abertas de par em par as portas do grande palácio de
Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!
Minha vida querida. Tahan, Malba. Rio de Janeiro: Conquista, 1957, p.93-98.
Hoje levantei cedo
"Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite.
É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje.
Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.
Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido.
Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho.
Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus.
Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades.
Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser.
E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma.
Tudo depende só de mim."
Charles Chaplin
http://www.academia.org.br/abl/media/Poesias_reunidas_Artur%20Lobo_PARA_INTERNET.pdf
Come è bello in autunno il fogliame
Come è bello in autunno il fogliame
Come è bello ora, molto più bello
seppur avviato a morire tra breve;
come è bello, mille volte più bello
che non a primavera o d'estate,
come è bello, d'autunno, il fogliame!
Quanta gioia vagare
lungamente tra i boschi,
vedere i vecchi alberi
che tutto l'antico splendore
esprimono. Che cosa vi accade
amici, che tanta gioia mi date?
Perché ogni vostra foglia
di tanta grazia si tinge?
Come è bello ora, molto più bello
seppur avviato a morire tra breve;
come è bello, mille volte più bello
che non a primavera o d'estate,
come è bello, d'autunno, il fogliame!
Quanta gioia vagare
lungamente tra i boschi,
vedere i vecchi alberi
che tutto l'antico splendore
esprimono. Che cosa vi accade
amici, che tanta gioia mi date?
Perché ogni vostra foglia
di tanta grazia si tinge?
G. Gezzele
As migalhas e os pássaros
As migalhas e os pássaros
No centro do mundo marcado pela água
o chiado – fixo, vaporoso – das cigarras
e galanteios, aqui chamados “quiebraplatos”;
entre a bruma solar que apenas se perfila
os pássaros declaram um vivo estuário de pão.
Quem, nesse feito, reparte a recompensa?
Importa ao cacique a ressurreição do jardim?
Depois – sem coerção nem tributos – eles retomam,
frondosos, o céu conveniente a seu vôo.
Um ato criador aprovado devotamente
por Emily Dickinson e até Eugenio Montale
que negocia robusto com fragmentos humanos,
nesse tempo único de tumbas e heróis.
E serve tão somente para livrar de culpa
e subscrever ternamente o papel da vida.
http://www.academia.org.br/abl/media/RB%2056-POESIA%20ESTRANGEIRA.pdf http://www.youtube.com/watch?v=50l_RjatpOA
Fine d'estate (Fim do verão)
Fine d'estate
Come agosto finisce, la mattina
dopo una notte di pioggia si sente
(il cielo è più profondo ) che l'autunno
sta per venire; ci si guarda intorno
e non si sa che fare: tutto
è fresco, rinnovato da uno smalto
malinconico di perplessità!
Allora si gironzola, si sta zitti,
sappiamo che c'è tempo, ma che pure
l'anno dovrà morire, ed il bel cielo,
il verde verniciato delle piante,
il rosso delle ruote ad asciugare,
l'incudine che suona di lontano,
lento cuore del giorno, tutto parla
d'una partenza prossima, un addio.
La memoria è una strada che si perde
e si ritrova dopo un'ansia breve,
tranquilla: già nel sole di settembre
scottante sulla schiena è un'altra estate,
che le vespe ronzando sulle ceste
dell'uva bianca indorano, e si mischia
al loro volo il rumore nascosto
e perenne del grano che ventila
un vecchio attento e polveroso.
Em agosto termina, na manhã
depois de uma noite de chuva se sente
(O céu é mais profundo) e outono
vai vir, você olha ao redor
e você não sabe o que fazer: tudo
é fresco, renovado com esmalte
melancolia de perplexidade!
Então você anda, você está em silêncio,
sabemos que não é o tempo, mas que
ano morrerá, eo lindo céu,
as plantas verdes pintadas,
o vermelho das rodas para secar,
uma rocha que parece longe,
cardíaco lento do dia, tudo fala
de um começo da próxima vez, adeus.
A memória é uma forma que você perde
e encontra-se depois de breve ansiedade,
silencioso: o mais cedo sol de setembro
quente em suas costas é outro verão,
que as vespas zumbem em cestas
Branco dourar uva, e mixes
seu ruído de vôo escondido
e trigo perene, que vai ao ar
um cuidado velho e empoeirado.
Attilio Bertolucci
Comportamento Verbal
Música compuesta por Piotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893). Es la sexta pieza de la obra para piano titulada "Las Estaciones", Op. 37b: Nº 6,"Junio" - Barcarola (Andante cantabile). La serie de 12 piezas, originalmente para piano, fue orquestada en 1942 por el compositor y director ruso Alexander Gauk (1893-1963). Esta música fue también utilizada y arreglada en 1988 por Philippe Sarde como parte de la banda sonora de la película "El oso", de Jean-Jacques Annaud. La interpretación corre a cargo de la Orquesta Sinfónica de Detroit dirigida por Neeme Järvi.
http://pt.scribd.com/doc/141870192/33515162-Comportamento-Verbal-B-F-SKINNER-Verbal-Behaviour
TCHAIKOVSKY - Autumn Song
"O Outono é uma segunda Primavera, em que cada folha é uma flor." Albert Camus
http://youtu.be/BQVd_N1xdVM
http://youtu.be/BQVd_N1xdVM
J.S.Bach - Las suites para orquesta
J.S.Bach (1685-1750)
Las suites para orquesta
Orchestra of the Age of Enlightenment
Frans Brüggen.
Suite nº 1 en Do mayor BWV 1066 0:00:20
2 oboes, fagot, cuerda y bajo continuo
1 - Ouverture
2 - Courante
3 - Gavotte I - II
4 - Forlane
5 - Menuet I - II
6 - Bourrée I - II
7 - Passepied I - II
Suite nº 2 en Si menor BWV 1067 0:22:21
Flauta traversa, cuerda* y bajo continuo (2 laúdes y cello). *Versión con un ejecutante por parte.
1 - Ouverture
2 - Rondeau
3 - Sarabande
4 - Bourrée I - II
5 - Polonaise & Double
6 - Menuet
7 - Badinerie
Suite nº 3 en Re mayor BWV 1068 0:42:53
2 Oboes, 3 Trompetas, timbales, cuerda y bajo continuo.
1 - Ouverture
2 - Air
3 - Gavotte I - II
4 - Bourrée
5 - Gigue
Suite nº 4 en Re mayor BWV 1069 1:02:04
3 Oboes, fagot, 3 Trompetas, timbales, cuerda y bajo continuo.
1 - Ouverture
2 - Bourrée I - II
3 - Gavotte
4 - Menuet I - II
5 - Réjouissance.
http://youtu.be/dvC0Lu623IQ
domingo, 22 de setembro de 2013
Giuseppe Verdi - Nabucco - Va pensiero
This is a sensible book. This is a book to improve your mind. I do not tell you all I know, because I do not want to swamp you with knowledge. - (Jerome K. Jerome)
Este é um livro sensível. Este é um livro para melhorar a sua mente. Eu não digo tudo o que eu sei, porque eu não quero inundá-lo com conhecimento. Jerome K. Jerome
http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/PauloBarreto/almaencantadoradasruas.htm
http://www.bibliaonline.net/biblia/?livro=40&versao=1&capitulo=24&leituraBiblica=12/10/2011&tipo=1&lang=pt-BR&pag_ini=30**********************************http://apronstringsandothertiesthatbind.wordpress.com/************http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/alma_encantadora_das_ruas.pdf
sábado, 21 de setembro de 2013
MICROCONTOS
Catorze de junho, poema de José Saramago
JOSÉ SARAMAGO
Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos?
O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo.
Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
In Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637
http://youtu.be/89dJ1EIK0iU
http://youtu.be/89dJ1EIK0iU
Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos?
O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo.
Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
In Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637
http://youtu.be/89dJ1EIK0iU
http://youtu.be/89dJ1EIK0iU
A MORTE DO AMOR
Se eu pudesse voltar atrás
Não te amava.
É tão mais fácil
Manter o coração quieto no peito
Como se todos os dias
E todas as horas fossem iguais.
A inquietação de me faltares
Deixa os meus olhos tristes
Esperando que aceites
A mão que te estendo.
Mas tu não estás.
Eu parti com a última onda
Sem saber se voltarei um dia,
E o caminho que os nossos pés
Juntos percorreram
Choram a saudade
De ter morrido o amor
Quando dissemos adeus.
ANA BRILHA, in A APOLOGIA DO SILÊNCIO (Ed. autor, 2012)
http://youtu.be/uD3t5e_83F8
Não te amava.
É tão mais fácil
Manter o coração quieto no peito
Como se todos os dias
E todas as horas fossem iguais.
A inquietação de me faltares
Deixa os meus olhos tristes
Esperando que aceites
A mão que te estendo.
Mas tu não estás.
Eu parti com a última onda
Sem saber se voltarei um dia,
E o caminho que os nossos pés
Juntos percorreram
Choram a saudade
De ter morrido o amor
Quando dissemos adeus.
ANA BRILHA, in A APOLOGIA DO SILÊNCIO (Ed. autor, 2012)
Inventário, José Saramago
De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
http://youtu.be/uD3t5e_83F8
Ed Wood soundtrack
"Ainda que chova,
ainda que doa
Ainda que a distância
Corroa as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri."
(Pablo Neruda)
http://www.youtube.com/watch?v=dWGOIrh-XrY&feature=share&list=PL1D030487B3DFE6BB
ainda que doa
Ainda que a distância
Corroa as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri."
(Pablo Neruda)
http://www.youtube.com/watch?v=dWGOIrh-XrY&feature=share&list=PL1D030487B3DFE6BB
Vals Musetta de la Bohème - Giacomo Puccini
'La Boheme fue compuesta por Giacomo Puccini y estrenada en 1896, bajo la batuta de Toscanini. En ese estreno no tuvo demasiado éxito de crítica ni de público, algo que ahora llama la atención, porque es una de las más representadas. Retrata la vida de unos artistas bohemios, un escritor, un pintor, un músico y un filósofo, y por supuesto, dos historias de amor, la de Rodolfo, el escritor, y Mimi y la de Marcello (pintor) y Musetta.
El video que he traido es del Segundo Acto de La Boheme, y es una de mis partes favoritas. Conocido como el vals de Musetta, el título es Quando Me'n Vo.'
http://youtu.be/IS6qPXms53c
Joh. Seb. BACH: Violin Concerto No.2 in E major BWV 1042 (arrangement for violin ad string quartet)
http://youtu.be/jGwVakfHfXY
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
O AMOR INFINITO - Johann Sebastian Bach (1685-1750)
O AMOR INFINITO
Da mulher o que nos comove e enleva é a parte impoluta que ela tem do céu; é a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, não sabido dela, não sabido de nós. Ali há mensagem de outras regiões; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas lágrimas, há um espirar para o alto, um ir-se o coração avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. Nós é que não sabemos nem podemos ver senão o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas graças do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de súbita embriaguez nos fazem crer que despimos o invólucro de barro e pairamos alados sobre a região das lágrimas.
É Deus que não quer ou somos nós que não podemos prorrogar a duração ao sonho? Se Deus, que mal faria à sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai tão rápida aquela estação em que o homem é bom porque ama, e é caritativo e dadivoso porque tudo sobeja à sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das intenções? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgraças estranhas? Que exuberância de bens a desbordar da alma! Que ânsia de fazermos em redor de nós alegrias, fortunas, mãos erguidas connosco a bem-dizer os contentamentos que nos chove o manancial dos puros deleites.
Não é Deus que nos agourenta as alegrias castas, as espirações que lhe comprazem. Nós é que não sabemos que luz é essa da nova manhã que dentro nos alumia voluptuosidades desconhecidas. Atribuímos ao efeito os prestígios da causa. É que não podemos ver por longo tempo a mensageira dos mundos estrelados: quizemos pôr a mão na vara que nos encantou; e a vara fez-se serpente, porque a alma imaculada já não era o impulsor da nossa ansiedade. O homem, escurecido já no interior, viu a mulher ao sol da terra, sol que incende o sangue, e abraza o rosto e cresta as asas do anjo. Ai dos anjos em carne que olham depois em si e correm a vestir-se da folhagem do paraíso! Desde esse momento a luz do homem, o calor das paixões radia do montante de fogo que empunha o executor de alta justiça. Fora do éden está o inferno. A baliza encravada na fronteira maldita chama-se o TÉDlO.
Camilo Castelo Branco
Jean-Sébastien Bach - Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Cantate - Kantate - Cantata
BWV 164 - Ihr, die ihr euch von Christo nennet
Soprano - Sopran - Soprano
Christoph Wegmann (Tölzer Knabenchor)
Peinture - Gemälde - Painting
Le Bon Samaritain (Vincent Van Gogh)
http://youtu.be/WaX2lv44qM8
AFIRMAÇÃO DO QUERER-VIVER
AFIRMAÇÃO DO QUERER-VIVER
"Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias." Lao-Tsé
«Terminamos agora os dois estudos que devíamos inserir aqui, um sobre a liberdade da vontade em si e sobre a necessidade do seu fenómeno, outro sobre a sorte da vontade neste mundo, que é o reflexo da sua natureza e cujo conhecimento deve decidi-la a afirmar-se ou a negar-se. Procederemos agora pelo tratamento mais completo da afirmação ou da negação da vontade, que até aqui nos limitamos a apresentar e a explicar no sentido geral: Pelo que estudaremos a conduta ou as acções, porquanto nelas é que a vontade se afirma ou se nega, e cujo significado íntimo procuraremos.
A afirmação da vontade é esse querer eterno que a inteligência não sofreria e que domina em geral a vida humana. Assim como o corpo é a objectividade da vontade, tal como aparece em tal grau e em tal ou tal indivíduo, assim também se pode dizer que a vontade que se desenvolve no tempo é, de certa maneira, a paráfrase do corpo, o comentário que lhe explica o conjunto e as partes, a representação, ou, por outras palavras, paráfrase da coisa em si, de que o corpo é o fenómeno. Em lugar de afirmação da vontade, podemos, conseguintemente, dizer também afirmação do corpo. Tema fundamental de todos os vários actos voluntários, é a satisfação das necessidades inseparáveis da existência do corpo em estado de saúde, que nele encontram a sua expressão e que podem ser reduzidas à conservação do indivíduo e à propagação da espécie. Mas, indirectamente, são sempre as necessidades, que atribuem aos motivos de todo género a respectiva influência sobre a vontade, que dão origem aos mais diversos actos voluntários. Cada qual destes actos não é mais que exemplo da vontade geral que nele se manifesta: pouco importa a natureza desse exemplo, a forma revestida pelo motivo e comunicada ao mesmo exemplo; o essencial aqui é querer em geral e querer em tal ou qual grau de energia. A vontade não pode tornar-se visível senão por meio dos motivos, assim como o órgão visual não patenteia sua faculdade de visão, senão em presença da luz. O motivo, tomado em sentido geral, mantém-se diante da vontade como um Proteu de mil formas: Promete sempre completa satisfação, calma à sede do querer; mas, apenas apanhado, toma forma nova para excitar novamente a vontade sempre na proporção da viveza desta última e da sua relação com o conhecimento: são precisamente os dois elementos que, por meio destas provas e destes exemplos, manifestam o carácter empírico.
Desde o primeiro despertar da consciência o homem se acha dotado de volição, e em regra geral a inteligência lhe permanece em constante relação com a vontade. Começa por procurar conhecer perfeitamente os objectos do seu querer e, depois, os meios para atingi-los. Sabe, então, o que deve fazer e não aspira comumente a saber outra coisa. Age e se exaure. A consciência de trabalhar sempre conformemente ao escopo do seu querer, sustenta-lhe as forças e a actividade; não pensa mais do que na escolha dos meios. Tal é a vida da maior parte dos homens; transcorre em querer, em saber o que quer e em aspirar com sucesso suficientemente bom para que não se reduzam ao desespero e suficientemente mau para que não possam fugir ao tédio e às respectivas consequências, do que resulta uma certa serenidade, ou, ao menos, tranquilidade, que a riqueza ou a miséria não podem perturbar, porquanto, ricos ou pobres, os homens não gozam o que possuem, porque, como vimos, o que se possui não tem mais que uma opinião negativa; gozam unicamente o que esperam conquistar com os próprios esforços. E continuam a mourejar com toda a serenidade, com grave aspecto, como as crianças quando brincam. Pode suceder, também, mas é sempre excepção rara, que a inteligência venha a romper o curso duma existência inalterada, quando, libertando-se do serviço da vontade e compreendendo a natureza do mundo em geral, o conhecimento lança o homem, seja à contemplação na ordem estética, seja à renúncia na ordem moral. A necessidade persegue quase todos os homens ao longo da vida, sem lhes dar tempo de reflectirem sobre si próprios. Em compensação, a vontade frequentemente se exalta até ao ponto de sobrepassar consideravelmente a afirmação do corpo; tal estado é então advertido por meio de emoções violentas, de paixões enérgicas, sob cujo império o indivíduo não se contenta com afirmar a própria existência, senão que também nega a dos outros e procura suprimi-la onde quer que lhe cause obstáculo.
A conservação do corpo por meio das próprias forças é um grau tão débil da afirmação da vontade que, se as coisas se mantivessem simplesmente nesse grau, poderíamos admitir que, com a morte do corpo, se extinguisse também a vontade que nele se manifestava. Mas a satisfação do instinto sexual é já um grau mais elevado da afirmação dessa existência que ocupa tão breve tempo; afirma a vida para além da morte do indivíduo e por tempo indeterminado. A natureza, sempre verdadeira e consequente, na ingenuidade do caso nos mostra claramente o significado íntimo do acto gerador. A nossa consciência e a vivacidade do instinto nos ensinam que esse acto exprime a mais positiva afirmação do querer-viver, puro e sem emendas; como resultado do acto surge uma nova existência no tempo, na série das causas, isto é, na natureza: como fenómeno, o ser procriado é diferente do seu procriador, mas em si, ou seja, do ponto de vista da ideia, lhe é idêntico. Tal acto, portanto, reúne num todo cada geração de seres viventes e em tal qualidade os perpetua. Em relação ao procriador, a procriação é apenas a expressão, o sintoma, por cujo meio afirma energicamente o seu querer-viver; em relação ao procriado, não é a razão da vontade que nele aparece, pois que a vontade em si não tem razões nem consequências, mas é, como qualquer coisa, a causa ocasional que faz aparecer a vontade em tal ou qual fenómeno e em tal ou qual lugar. Como coisa em si, a vontade de um e a de outro são idênticas, porque é apenas o fenómeno, e não a coisa em si, que está sujeito ao princípio de individuação. Tal afirmação, que ultrapassa o corpo do indivíduo e chega a criar até um novo organismo, afirma simultaneamente a dor e a morte, partes integrantes do fenómeno da vida, declarando duma só vez falida qualquer redenção que tivesse podido ser produzida pela inteligência na mais alta perfeição. Por esta razão profunda o congresso sexual é tido na conta de vergonhoso. No dogma da religião cristã tal sentimento é expresso pelo mito que nos apresenta todos os participes do pecado de Adão (que evidentemente não é mais que a satisfação do instinto sexual) como passíveis, por essa razão, da dor e da morte. Sob este ponto de vista, a doutrina de Cristo se eleva acima do conhecimento segundo o princípio de razão: Compreende a ideia humana de que os inumeráveis elementos, esparsos como indivíduos, são reconstituidos em unidade por meio dos liames poderosos da geração. Por conseguinte, considera todo indivíduo, por um lado como idêntico a Adão, representante da afirmação do querer-viver, e como abandonado por isso à mercê do pecado (o pecado original), da dor e da morte, e, por outro lado, em virtude do conhecimento da ideia, o considera idêntico ao Salvador, representante da negação do querer-viver, como participante, em tal qualidade, do sacrifício do Redentor, como remido pelos méritos deste e como liberto dos liames do pecado e da morte, ou seja, do mundo (Rom. 5.12-21).
Na mitologia grega encontramos outra alegoria que se espraia sobre os mesmos horizontes, sobre a satisfação sexual considerada como um querer-viver afirmado para além da vida individual, como uma condenação à vida pronunciada pelo próprio acto, ou como uma renovação do título que da direito à vida: trata-se da fábula de Prosérpina, que pode retornar à terra até ao momento em que não haja provado os frutos do Averno, mas que se torna prisioneira para sempre em virtude de ter comido uma romã. O verso da alegoria ressalta muito claro na incomparável narração de Goethe, sobretudo, nesse passo em que, apenas Prosérpina acaba de provar a romã, o coro invisível das Parcas entoa o hino:
Du bist unser!
Nuchtern solltest wiederkehren:
Und der Biss des Apfels mach dich unser!
É singular que Clemente de Alexandria (Strom, III, c. 15) se sirva, em tal assunto, da mesma imagem e da mesma expressão: Aqueles que se subtrairam ao pecado, pelo reino dos céus, são felizes abstendo-se das coisas do mundo, qui se castrarunt ab omni peccato propter regnum caelorum, ii sunt beati, a mundo jejunant es.
O instinto sexual demonstra, além disso, ser a mais positiva e mais enérgica afirmação do querer-viver, porque constituiu para o homem, no estado de natureza, como para o animal, o último escopo e o supremo resultado da vida. A primeira tendência do indivíduo é a conservação de si; apenas tenha provido a tal, não aspira senão a propagar a espécie; como criatura natural não pode ter, para além, outra tendência. Também a natureza, da qual é essência íntima o querer-viver, atira com todas as suas forças, tanto o homem quanto o animal, à reprodução. Depois do que, quando obteve do indivíduo o resultado que dele esperava, torna-se absolutamente indiferente à sua destruição; porquanto na sua qualidade de querer-viver, interessa-se unicamente pela conservação da espécie, e nunca pelo indivíduo. Justamente porque a essência íntima da natureza, a vontade de viver, se pronuncia com força maior no instinto sexual, os poetas e os filósofos antigos – Hesíodo e Parmênides – diziam com muito acerto que Eros era o princípio primário, o princípio criador donde veio tudo (Aríst. Metaph. 1, 4). Ferecidas disse: Javé, querendo criar o mundo, deve ter-se transformado em desejo (Proclo a Plat. Tim., 1 III). Há pouco recebi uma dissertação pormenorizada sobre este argumento, de G. F. Schoemann, “De Cupidine Cosmogonico”, 1852. O amor é também a paráfrase da Maya dos Hindus, da qual todo o mundo do fenômeno é a obra e o tecido.
As partes genitais são, mais que quaisquer outras, sujeitas exclusívamente à vontade e nunca à inteligência. A vontade ali se mostra independente do conhecimento, quase como sucede com os órgãos que servem à reprodução da vida vegetativa, por virtude da simples excitação, e em que a vontade age cegamente como na natureza inconsciente. Porquanto a procriação não é mais que a reprodução transmitida a um novo indivíduo, de certa maneira uma reprodução em segundo grau, como a morte não é mais que uma excreção na segunda potência. Donde resulta que as partes sexuais são o verdadeiro foco da vontade, porquanto o pólo contrário ao cérebro que representa a inteligência, ou seja, a outra face do mundo, do mundo como representação. São elas o princípio que mantém a vida, que assegura ao tempo uma existência eterna; a este título os Gregos adoravam essas partes no Falo e os Hindus no Lingam, que simbolizam a afirmação da vontade. A inteligência, ao contrário, cria a possibilidade da supressão do querer, da salvação por meio da liberdade, da vitória sobre o mundo e do seu aniquilamento.
Longamente examinamos, no princípio deste livro, a relação em que a vontade de viver que se afirma, se acha com a morte. Vimos que não é por ela afetada, estando a morte já contida na vida de que faz parte, e a qual é plenamente compensada pelo seu oposto, a geração, a qual assegura e garante continuamente a vida ao querer-viver, malgrado a morte do indivíduo, o que os Hindus exprimiram com dar o Lingam por atributo a Çiva, o deus da morte. Expusemos, também, difusamente, como o homem, colocado no ponto de vista a afirmação decidida da vida, face a face contempla a morte sem medo, se conserva a plenitude do seu raciocínio. A isto nada tenho a ajuntar. A maior parte dos homens se mantém neste ponto de vista, alterando a clareza do próprio juízo, e não cessa de afirmar a vida. O espelho que nos mostra a imagem de tal afirmação é o mundo, com indivíduos inumeráveis, no tempo e no espaço sem medida, em dores sem limite, entre o nascimento e a morte sem fim. O que não demove lamentação alguma, pelo fato de a vontade representar à própria custa a grande tragicomédia, cujo espetáculo ao mesmo tempo assiste. O mundo é precisamente feito assim porque a vontade, da qual constitui o fenômeno, é tal e porque ela assim o quer. Quanto às dores, justificam-se porque a vontade se afirma também neste fenómeno, e tal afirmação se justifica a seu turno e se compensa com o facto pelo qual é a vontade que suporta todas as dores. Coisa com a qual já se toma possível entrever a justiça eterna no conjunto. Para diante havemos de reconhecê-la melhor e com mais nitidez também nos pormenores. Mas antes é preciso falar também da justiça temporal ou humana.»
in: O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/representacao4.html#8
"Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias." Lao-Tsé
«Terminamos agora os dois estudos que devíamos inserir aqui, um sobre a liberdade da vontade em si e sobre a necessidade do seu fenómeno, outro sobre a sorte da vontade neste mundo, que é o reflexo da sua natureza e cujo conhecimento deve decidi-la a afirmar-se ou a negar-se. Procederemos agora pelo tratamento mais completo da afirmação ou da negação da vontade, que até aqui nos limitamos a apresentar e a explicar no sentido geral: Pelo que estudaremos a conduta ou as acções, porquanto nelas é que a vontade se afirma ou se nega, e cujo significado íntimo procuraremos.
A afirmação da vontade é esse querer eterno que a inteligência não sofreria e que domina em geral a vida humana. Assim como o corpo é a objectividade da vontade, tal como aparece em tal grau e em tal ou tal indivíduo, assim também se pode dizer que a vontade que se desenvolve no tempo é, de certa maneira, a paráfrase do corpo, o comentário que lhe explica o conjunto e as partes, a representação, ou, por outras palavras, paráfrase da coisa em si, de que o corpo é o fenómeno. Em lugar de afirmação da vontade, podemos, conseguintemente, dizer também afirmação do corpo. Tema fundamental de todos os vários actos voluntários, é a satisfação das necessidades inseparáveis da existência do corpo em estado de saúde, que nele encontram a sua expressão e que podem ser reduzidas à conservação do indivíduo e à propagação da espécie. Mas, indirectamente, são sempre as necessidades, que atribuem aos motivos de todo género a respectiva influência sobre a vontade, que dão origem aos mais diversos actos voluntários. Cada qual destes actos não é mais que exemplo da vontade geral que nele se manifesta: pouco importa a natureza desse exemplo, a forma revestida pelo motivo e comunicada ao mesmo exemplo; o essencial aqui é querer em geral e querer em tal ou qual grau de energia. A vontade não pode tornar-se visível senão por meio dos motivos, assim como o órgão visual não patenteia sua faculdade de visão, senão em presença da luz. O motivo, tomado em sentido geral, mantém-se diante da vontade como um Proteu de mil formas: Promete sempre completa satisfação, calma à sede do querer; mas, apenas apanhado, toma forma nova para excitar novamente a vontade sempre na proporção da viveza desta última e da sua relação com o conhecimento: são precisamente os dois elementos que, por meio destas provas e destes exemplos, manifestam o carácter empírico.
Desde o primeiro despertar da consciência o homem se acha dotado de volição, e em regra geral a inteligência lhe permanece em constante relação com a vontade. Começa por procurar conhecer perfeitamente os objectos do seu querer e, depois, os meios para atingi-los. Sabe, então, o que deve fazer e não aspira comumente a saber outra coisa. Age e se exaure. A consciência de trabalhar sempre conformemente ao escopo do seu querer, sustenta-lhe as forças e a actividade; não pensa mais do que na escolha dos meios. Tal é a vida da maior parte dos homens; transcorre em querer, em saber o que quer e em aspirar com sucesso suficientemente bom para que não se reduzam ao desespero e suficientemente mau para que não possam fugir ao tédio e às respectivas consequências, do que resulta uma certa serenidade, ou, ao menos, tranquilidade, que a riqueza ou a miséria não podem perturbar, porquanto, ricos ou pobres, os homens não gozam o que possuem, porque, como vimos, o que se possui não tem mais que uma opinião negativa; gozam unicamente o que esperam conquistar com os próprios esforços. E continuam a mourejar com toda a serenidade, com grave aspecto, como as crianças quando brincam. Pode suceder, também, mas é sempre excepção rara, que a inteligência venha a romper o curso duma existência inalterada, quando, libertando-se do serviço da vontade e compreendendo a natureza do mundo em geral, o conhecimento lança o homem, seja à contemplação na ordem estética, seja à renúncia na ordem moral. A necessidade persegue quase todos os homens ao longo da vida, sem lhes dar tempo de reflectirem sobre si próprios. Em compensação, a vontade frequentemente se exalta até ao ponto de sobrepassar consideravelmente a afirmação do corpo; tal estado é então advertido por meio de emoções violentas, de paixões enérgicas, sob cujo império o indivíduo não se contenta com afirmar a própria existência, senão que também nega a dos outros e procura suprimi-la onde quer que lhe cause obstáculo.
A conservação do corpo por meio das próprias forças é um grau tão débil da afirmação da vontade que, se as coisas se mantivessem simplesmente nesse grau, poderíamos admitir que, com a morte do corpo, se extinguisse também a vontade que nele se manifestava. Mas a satisfação do instinto sexual é já um grau mais elevado da afirmação dessa existência que ocupa tão breve tempo; afirma a vida para além da morte do indivíduo e por tempo indeterminado. A natureza, sempre verdadeira e consequente, na ingenuidade do caso nos mostra claramente o significado íntimo do acto gerador. A nossa consciência e a vivacidade do instinto nos ensinam que esse acto exprime a mais positiva afirmação do querer-viver, puro e sem emendas; como resultado do acto surge uma nova existência no tempo, na série das causas, isto é, na natureza: como fenómeno, o ser procriado é diferente do seu procriador, mas em si, ou seja, do ponto de vista da ideia, lhe é idêntico. Tal acto, portanto, reúne num todo cada geração de seres viventes e em tal qualidade os perpetua. Em relação ao procriador, a procriação é apenas a expressão, o sintoma, por cujo meio afirma energicamente o seu querer-viver; em relação ao procriado, não é a razão da vontade que nele aparece, pois que a vontade em si não tem razões nem consequências, mas é, como qualquer coisa, a causa ocasional que faz aparecer a vontade em tal ou qual fenómeno e em tal ou qual lugar. Como coisa em si, a vontade de um e a de outro são idênticas, porque é apenas o fenómeno, e não a coisa em si, que está sujeito ao princípio de individuação. Tal afirmação, que ultrapassa o corpo do indivíduo e chega a criar até um novo organismo, afirma simultaneamente a dor e a morte, partes integrantes do fenómeno da vida, declarando duma só vez falida qualquer redenção que tivesse podido ser produzida pela inteligência na mais alta perfeição. Por esta razão profunda o congresso sexual é tido na conta de vergonhoso. No dogma da religião cristã tal sentimento é expresso pelo mito que nos apresenta todos os participes do pecado de Adão (que evidentemente não é mais que a satisfação do instinto sexual) como passíveis, por essa razão, da dor e da morte. Sob este ponto de vista, a doutrina de Cristo se eleva acima do conhecimento segundo o princípio de razão: Compreende a ideia humana de que os inumeráveis elementos, esparsos como indivíduos, são reconstituidos em unidade por meio dos liames poderosos da geração. Por conseguinte, considera todo indivíduo, por um lado como idêntico a Adão, representante da afirmação do querer-viver, e como abandonado por isso à mercê do pecado (o pecado original), da dor e da morte, e, por outro lado, em virtude do conhecimento da ideia, o considera idêntico ao Salvador, representante da negação do querer-viver, como participante, em tal qualidade, do sacrifício do Redentor, como remido pelos méritos deste e como liberto dos liames do pecado e da morte, ou seja, do mundo (Rom. 5.12-21).
Na mitologia grega encontramos outra alegoria que se espraia sobre os mesmos horizontes, sobre a satisfação sexual considerada como um querer-viver afirmado para além da vida individual, como uma condenação à vida pronunciada pelo próprio acto, ou como uma renovação do título que da direito à vida: trata-se da fábula de Prosérpina, que pode retornar à terra até ao momento em que não haja provado os frutos do Averno, mas que se torna prisioneira para sempre em virtude de ter comido uma romã. O verso da alegoria ressalta muito claro na incomparável narração de Goethe, sobretudo, nesse passo em que, apenas Prosérpina acaba de provar a romã, o coro invisível das Parcas entoa o hino:
Du bist unser!
Nuchtern solltest wiederkehren:
Und der Biss des Apfels mach dich unser!
É singular que Clemente de Alexandria (Strom, III, c. 15) se sirva, em tal assunto, da mesma imagem e da mesma expressão: Aqueles que se subtrairam ao pecado, pelo reino dos céus, são felizes abstendo-se das coisas do mundo, qui se castrarunt ab omni peccato propter regnum caelorum, ii sunt beati, a mundo jejunant es.
O instinto sexual demonstra, além disso, ser a mais positiva e mais enérgica afirmação do querer-viver, porque constituiu para o homem, no estado de natureza, como para o animal, o último escopo e o supremo resultado da vida. A primeira tendência do indivíduo é a conservação de si; apenas tenha provido a tal, não aspira senão a propagar a espécie; como criatura natural não pode ter, para além, outra tendência. Também a natureza, da qual é essência íntima o querer-viver, atira com todas as suas forças, tanto o homem quanto o animal, à reprodução. Depois do que, quando obteve do indivíduo o resultado que dele esperava, torna-se absolutamente indiferente à sua destruição; porquanto na sua qualidade de querer-viver, interessa-se unicamente pela conservação da espécie, e nunca pelo indivíduo. Justamente porque a essência íntima da natureza, a vontade de viver, se pronuncia com força maior no instinto sexual, os poetas e os filósofos antigos – Hesíodo e Parmênides – diziam com muito acerto que Eros era o princípio primário, o princípio criador donde veio tudo (Aríst. Metaph. 1, 4). Ferecidas disse: Javé, querendo criar o mundo, deve ter-se transformado em desejo (Proclo a Plat. Tim., 1 III). Há pouco recebi uma dissertação pormenorizada sobre este argumento, de G. F. Schoemann, “De Cupidine Cosmogonico”, 1852. O amor é também a paráfrase da Maya dos Hindus, da qual todo o mundo do fenômeno é a obra e o tecido.
As partes genitais são, mais que quaisquer outras, sujeitas exclusívamente à vontade e nunca à inteligência. A vontade ali se mostra independente do conhecimento, quase como sucede com os órgãos que servem à reprodução da vida vegetativa, por virtude da simples excitação, e em que a vontade age cegamente como na natureza inconsciente. Porquanto a procriação não é mais que a reprodução transmitida a um novo indivíduo, de certa maneira uma reprodução em segundo grau, como a morte não é mais que uma excreção na segunda potência. Donde resulta que as partes sexuais são o verdadeiro foco da vontade, porquanto o pólo contrário ao cérebro que representa a inteligência, ou seja, a outra face do mundo, do mundo como representação. São elas o princípio que mantém a vida, que assegura ao tempo uma existência eterna; a este título os Gregos adoravam essas partes no Falo e os Hindus no Lingam, que simbolizam a afirmação da vontade. A inteligência, ao contrário, cria a possibilidade da supressão do querer, da salvação por meio da liberdade, da vitória sobre o mundo e do seu aniquilamento.
Longamente examinamos, no princípio deste livro, a relação em que a vontade de viver que se afirma, se acha com a morte. Vimos que não é por ela afetada, estando a morte já contida na vida de que faz parte, e a qual é plenamente compensada pelo seu oposto, a geração, a qual assegura e garante continuamente a vida ao querer-viver, malgrado a morte do indivíduo, o que os Hindus exprimiram com dar o Lingam por atributo a Çiva, o deus da morte. Expusemos, também, difusamente, como o homem, colocado no ponto de vista a afirmação decidida da vida, face a face contempla a morte sem medo, se conserva a plenitude do seu raciocínio. A isto nada tenho a ajuntar. A maior parte dos homens se mantém neste ponto de vista, alterando a clareza do próprio juízo, e não cessa de afirmar a vida. O espelho que nos mostra a imagem de tal afirmação é o mundo, com indivíduos inumeráveis, no tempo e no espaço sem medida, em dores sem limite, entre o nascimento e a morte sem fim. O que não demove lamentação alguma, pelo fato de a vontade representar à própria custa a grande tragicomédia, cujo espetáculo ao mesmo tempo assiste. O mundo é precisamente feito assim porque a vontade, da qual constitui o fenômeno, é tal e porque ela assim o quer. Quanto às dores, justificam-se porque a vontade se afirma também neste fenómeno, e tal afirmação se justifica a seu turno e se compensa com o facto pelo qual é a vontade que suporta todas as dores. Coisa com a qual já se toma possível entrever a justiça eterna no conjunto. Para diante havemos de reconhecê-la melhor e com mais nitidez também nos pormenores. Mas antes é preciso falar também da justiça temporal ou humana.»
in: O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/representacao4.html#8
The Very Best Of Kenny G
The Very Best Of Kenny G
Track Listing:
"Forever in Love" - 4:57
"Waiting for You" - 4:59
"By the Time This Night Is Over" - 4:46
"Jasmine Flower" - 4:36
"Theme from Dying Young" - 5:18
"Uncle Al" - 4:35
"Going Home" - 5:28
"Silhouette" - 4:30
"Against Doctor's Orders" - 4:06
"We've Saved the Best for Last" - 4:19
"Sade" - 4:18
"Midnight Motion" - 4:07
"Don't Make Me Wait for Love" - 4:45
"Songbird" - 3:59
http://youtu.be/WMTb4qiJYJc
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Yehudi Menuhin and George Enescu play Bach - MEMÓRIA de...
http://festivalinsider.blogspot.pt/2010/09/memoria-de-elefante.html
Yehudi Menuhin and George Enescu play Bach
http://youtu.be/1yKG40sDFew
Yehudi Menuhin and George Enescu play Bach
http://youtu.be/1yKG40sDFew
POEMA DA RECUSA
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda
MARIA TERESA HORTA, in VOZES E OLHARES NO FEMININO (Ed. Afrontamento, 2001)
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Johann Sebastian Bach in 1685 ~ 1750
BWV 162 --
Today, September 19, 2013
Johann Sebastian Bach in 1685 ~ 1750
Cantate "Ach, ich sehe, itzt, das ich zur Hochzeit gehe " ( Ah , io vedo, vado a questo matrimonio )
http://www.youtube.com/watch?v=eYbd-NdLwEY
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