terça-feira, 20 de agosto de 2013

No meu tempo



No meu tempo era a rua,
 A melhor escola das crianças,
 Porque era na rua que se viam
 Mestres e artífices,
 Entregues aos seus ofícios,
 Homens valentes,
 Donos
 E senhores de si,
 Mas também loucos,
 Bêbados e vagabundos.
 No meu tempo era a rua,
 E na minha rua,
 Uma criança via de tudo,
 E com tudo aprendia e crescia,
 Rasgos de inteligência ou sorte,
 Histórias de valentia ou cobardia,
 Actos heróicos, de drama
 Comédia ou tragédia,
 De fazer inveja
 Às mais belas
 E empolgantes,
 Peças de teatro antigas;
 No meu tempo era a rua,
 E era certo que uma criança
 Que tudo visse
 E com tudo aprendesse,
 Na minha rua,
 Haveria de crescer,
 Para ser alguém na vida,
 Ou então, esmorecia e entristecia
 Por não poder ficar para sempre criança,
 A ver tudo, o que havia para viver na vida
 A aprender e a desaprender com quase tudo,
 O que havia para lembrar ou esquecer na vida.

MA, SobreViver, Esfera do Caos, 2013, pp. 101-102.

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