sábado, 3 de agosto de 2013
M.A_pina
«Manuel António Pina foi em 2011 distinguido com o Prémio Camões, um dos maiores galardões da Língua Portuguesa. Não foi só o reconhecimento do valor da sua poesia que esteve em causa, mas também o trabalho dedicado à escrita para crianças, ou melhor, todo um trabalho efectivo da linguagem, que se manifesta em diferentes usos, em diferentes plasticidades.
O último livro de poesia editado por Pina, Os Livros, saíra em 2003, pelo que este prémio terá sublinhado a urgência desta antologia pessoal, que reorganiza os poemas numa sequência nova, da responsabilidade do próprio poeta, longe de condicionalismos ou propósitos cronológicos. Dos seus treze livros de poesia, encontramos representados cerca de nove; os poemas de Os Livros estão entre os que assumem uma maior representatividade, como seria aliás expectável. Aliás, tanto a epígrafe como os poemas inicial e final pertencem a essa recolha de 2003, que deposita a sua reflexão central na linguagem, nas palavras, essas «formas indecisas/ procurando um eixo que/ lhes dê peso»
Encontramos concentrada neste pequeno volume o que parece constituir a súmula da poesia e da poética de Manuel António Pina: a reflexão irónica, mas não distanciada, sobre a morte e a consciência da língua como matéria de simultânea construção e de erosão da própria realidade. E, neste aspecto, o poema que inaugura o livro, necessariamente uma «Arte Poética», acaba por resgatar esta consciência de que só pela postura irónica (que sob o riso e o humor esconde uma toada também amarga e dolente) se faz a significação da palavra poética. Alguns dos mais belos poemas de Manuel António Pina, com uma certa resistência desconfiada perante a poesia, estão presentes na antologia. É o caso de «Saudade da prosa», que empresta mesmo o título ao livro, ou o poema «a Um jovem poeta»: «Procura a rosa./ Onde ela estiver/ estás tu fora/ de ti. Procura-a em prosa, pode ser/ que em prosa/ ela floresça/ ainda/ sob tanta/ metáfora.». Também marca presença o vaticínio irónico que nos dizia desde os anos 70, no primeiro livro de poesia de M. António Pina, que «a poesia vai acabar, os poetas/ vão ser colocados em lugares mais úteis.». E não se poderia, nesta, que é uma antologia pessoal, ignorar-se o poema «Numa estação de Metro», com os versos inesquecíveis «A minha juventude passou e eu não estava lá./ Pensava noutra coisa, olhava noutra direcção./ os melhores anos da minha vida perdidos por distracção.».
Uma antologia que bem reúne o espírito da poesia de Pina, e que, parafraseando o poema «Ferida»», junta pedaços de todos os seus livros para «desimaginar o mundo, descriá-lo/ amarrado ao mastro mais altivo/ do passado.» (Rita Taborda Duarte)
via
http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=30845
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário