O desespero - percebes finalmente/ -
era uma energia, uma espécie de caminho/
para quem não tinha passos. Os amigos/
(se assim lhes podias chamar) encontravam-se/
à volta de uma garrafa e injuriavam toda a noite/
o amor de que em breve se fariam escravos./
Falavam de quase nada, os olhos parados/
na música, o corpo disponível/
para charros, risos e derrotas. Essas ruas,/
sabes, nunca mais foram assim/
o rastilho da descrença e o motim da desrazão./
Coisas de facto imberbes - navalhas/
que fingiam a dolorosa perfeição da indiferença./
Pouco importa. Outros sinais cresceram,/
fazendo desses rostos uma porta/
fechada onde nem pela memória/
esperas o milagre de encontrar alguém./
Deve ser a morte, o fim, isso mesmo
que julgavas esconjurar quando punhas flores/
no gargalo verde e vigiado das garrafas./
A luz dos últimos bares tomba agora/
sobre um corpo esquivo, mais sozinho,/
que nem sequer nestas palavras acredita./
Manuel de Freitas
[SIC]
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim
via
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/manuel_freitas/poetas_manuelfreitas01.htm
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/jorge_sena/escritores_jorgesena_ograndesegredo01.htm
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