segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Manuel de Freitas

O desespero - percebes finalmente/ - era uma energia, uma espécie de caminho/ para quem não tinha passos. Os amigos/ (se assim lhes podias chamar) encontravam-se/ à volta de uma garrafa e injuriavam toda a noite/ o amor de que em breve se fariam escravos./ Falavam de quase nada, os olhos parados/ na música, o corpo disponível/ para charros, risos e derrotas. Essas ruas,/ sabes, nunca mais foram assim/ o rastilho da descrença e o motim da desrazão./ Coisas de facto imberbes - navalhas/ que fingiam a dolorosa perfeição da indiferença./ Pouco importa. Outros sinais cresceram,/ fazendo desses rostos uma porta/ fechada onde nem pela memória/ esperas o milagre de encontrar alguém./ Deve ser a morte, o fim, isso mesmo que julgavas esconjurar quando punhas flores/ no gargalo verde e vigiado das garrafas./ A luz dos últimos bares tomba agora/ sobre um corpo esquivo, mais sozinho,/ que nem sequer nestas palavras acredita./


Manuel de Freitas [SIC] poesia inédita portuguesa Assírio & Alvim via
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/manuel_freitas/poetas_manuelfreitas01.htm



http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/jorge_sena/escritores_jorgesena_ograndesegredo01.htm

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