Oliveira, o Arquitecto
de Paulo Rocha
com Participação de Manoel de Oliveira, Maria Isabel de Oliveira, Leonor Silveira, João Bénard da Costa e Paulo Rocha
Sinopse:
Manoel de Oliveira, a vida e a obra - retrato do artista, revelação do homem. Os filmes, os locais, as memórias, os testemunhos. O Porto e o Douro. A esposa, Maria Isabel; a actriz de "Vale Abraão", Leonor Silveira. Entrevista do realizador com o realizador, depoimento por João Bénard da Costa. Em casa do cineasta. Na Cinemateca Portuguesa.
Observações
A versão portuguesa original tem 76 minutos. A versão exibida no canal ARTE tem 58 minutos.
Presente no Festival de Cinema de Locarno em 1993.
A primeira exibição nacional realizou-se na Cinemateca Portuguesa, a 14 de Outubro de 1993. Estreou-se na RTP 2 em 10 de Setembro de 1995.
"Quando de Paris a viúva do André Bazin e o Labarthe me pediram para fazer um retrato de Manoel de Oliveira destinado ao canal franco-alemão ARTE/LA SEPT, foi-me difícil dizer que não. Tinha contas antigas a ajustar comigo e com ele, ocasião para procurar as raízes portuenses do nosso cinema, mal estimadas cá e lá.
Não queria nada de didáctico, de retrato explicativo. Queria um ramo de flores venenosas, uma salva de palmas para o velho mestre canibal. Depois, com o vampiro amansado, surripiar-lhe confidências e ironias, num deambular lírico pelas cavernas da memória, entre piruetas, gargalhadas e gotas de sangue.
Queria abrir os portões dos padrinhos portuenses da Invicta Filmes, espreitar os capitalistas viúvos a afiarem o dente nos pescoços tenros das vedetas do mudo, nadas e criadas nas águas do Douro. Queria o Douro da Angélica, da Bovary e da Agustina, um rio de vinho fino, azedo, visionário, com o Manoel a voar entre as cumeadas, ao volante da sua avionete, a bombardear com flores a bela Isabel Carvalhaes, a namorada arisca. Perseguido pelas gargalhadas da Silveira em diabo vermelho, queria o ogre Bénard a gemer, a babar-se nas caves da Cinemateca, devorado pelo Nosferatu do Norte, sob o olhar complacente da Lua.
Queria meter o nariz nas revistas tripeiras dos anos trinta, com jornalistas atrevidas a fazerem perguntas vanguardistas
E ele... emudeceu
os olhos postos na pele
do meu seio que sofria...
ao jovem Adonis dos ginásios, ao galã narciso da Fátima Milagrosa.
Queria sobretudo fazer conversar entre si o Manuel/Maneta de " A Caça", o Judas do " Acto", o Boeiro da " Faina", o barco negro do " Pintor", aquelas imagens nortenhas dos tempos heróicos em que o Manuel, um realizador desconhecido, solitário e sózinho à câmara, filmava sem equipa, e em que se sentia o coto da mão a tremer, o olhar hesitante no meio do plano, apalpando o pulsar dos corpos e os dilemas da consciência. Imagens rudes, impressões digitais, marcas a fogo de um cinema sem polimento industrial, directo, "imperfeito" e teimoso como um rabisco do Picasso.
Ai Paulo, Paulo! À boca do " Vale Abraão", enquanto o perseguias, saiu-te um Manuel melhor (e mais ruim) que a encomenda, que era preciso surpreender com perguntas logo respondidas à queima-roupa, bem ou mal inspiradas, sem retoques, sem voltar atrás, sem prévias combinações. Perguntas falhadas, respostas fulgurantes perdendo-se de caminho.
Do "Preto e do Negro", o teu filme preferido, recusou-se a falar. Da "Angélica" e do "Arquitecto", as suas obras primas, contou o que vão ouvir.
Paulo Rocha, in Folhas da Cinemateca, 14/10/1993
http://www.amordeperdicao.pt/basedados_filmes.asp?filmeid=231
http://youtu.be/_YggMSm9-Q0
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