sexta-feira, 3 de maio de 2013

ÉS UM VESTIDO

ÉS UM VESTIDO


Quase parece um vestido.

Se o fosse, imaginá-lo-ia num cabide branco, em espera.

Inventaria então o mais brutal dos desejos: o de um corpo o poder habitar sem asfixiar de realidade.

 
No fundo dos fundos há uma porta invisível. Saberei reconhecê-la porque nenhuma outra é igual. Não a vejo, imagino-a como uma palavra de um alfabeto privado.


A porta invisível que mais parece um vestido creme, em espera.


Sigo em frente. Ficarei cego para o conseguir ver. Um preço leve, quase nada. Um vestido que é uma porta de utopia, um desejo de liberdade que não é a liberdade, é outra coisa. Deixar de ver para ver. Um leve preço, quase nada.


Não sinto o que toco. Mas toco.

Parece ser a que sonhei.

Como se fosse possível o impossível. Como se no fundo dos fundos de mim, ela existisse.


Ela.

Uma porta.

Que é um vestido.

Que é um cabide dentro de uma palavra por existir.

Uma liberdade que não é liberdade, é mais.

Que é tudo. Um amor sem tédio ou passado. Apenas isso e tudo isso.


Quase parece um vestido dentro de uma porta.

Um vestido que me espera com uma palavra nova, nunca ouvida.

Uma palavra que será nossa.


Para sempre.


Mesmo que o sempre seja um breve hoje, seguirei.


Para dentro do vestido que imagino.

Para dentro dela.

No interior da utopia.

Agora que não vejo, vejo-a.

Entro.

Fico em espera.


À espera que perca a visão para me ver.

Seremos então o vestido. E descansaremos.
Texto : Luís Osório, para uma Fotografia de Estelle Valente
 
via
 
http://lesombresdutemps.blogspot.pt/2013/04/luis-osorio.html?spref=fb

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